sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - unidade I - capítulo 3


Todas as tentativas posteriores de entrar em contato com os macuxis esbarraram numa parede invisível.

Ao 7º PEF cabia um papel de passividade completa, o que desgostava sobremaneira seu comandante, Coronel Armando Paglia.

Paglia era um homem bastante carismático entre os seus comandados. Com uma envergadura privilegiada, mais de um metro e noventa de altura, cabelos meio grisalhos, porte atlético, pele muito branca, olhos claros simpáticos, costumava ser o primeiro nas ações florestais de rotina, pois aquela mata, dizia ele, era como se fosse o quintal de sua casa, embora a infância e adolescência tenham sido excessivamente urbanas, vividas na grande Curitiba, até ingressar no exército por influência do padrinho, oficial da mesma arma.

Armando Paglia viajara muito por este Brasil afora, sempre a serviço do país, que amava muito e colocava acima da razão de família, esta ainda residente em Curitiba.

Por essas e por outras, Paglia não podia admitir qualquer tipo de fracasso na missão de reconhecimento e identificação do provável agente inimigo, e convocara para uma reunião urgente três dos seus principais colaboradores no quartel.

Um deles era o capitão Ernesto Siboldi, que os leitores já conhecem, o outro era o Tenente Jorge Mascarenhas, um homem baixo, atarracado, cabelos castanhos claros, olhos verdes escuros. Alguns amigos diziam que um caminhão havia caído em cima dele, por isso ele tinha aquela aparência “amassada”. O terceiro se chamava Aníbal Gusmão, um negro forte, já com certa idade de serviços prestados ao exército e que aguardava a aposentadoria para muito breve na patente de Primeiro Sargento.

Após uma ladainha maçante, quando Paglia apelou para os sentimentos patrióticos dos seus comandados, Siboldi tentou se explicar...

– Não podemos fazer nada, Senhor – mas isto fora dito com certa angústia, cheio de dedos, porque Siboldi conhecia Paglia muito bem, e o fato do Coronel ser um homem simpático e carismático, só o tornava mais bravo numa hora de gravidade como esta. – Os índios são protegidos pela lei. Não podemos simplesmente invadir a reserva e obrigá-los a evitar os “gringos”. Não há como comprovar que eles estão sendo influenciados por estrangeiros a irem contra os interesses brasileiros, a não ser que nós pudéssemos gravar a movimentação deles na reserva. Mas como, se os índios não querem nos ver lá?... Pra todos os efeitos são turistas com seus passaportes em dia.

Paglia refletiu um minuto sobre o que acabava de ouvir e fez mais uma pergunta:

– Vocês já checaram esses passaportes pessoalmente?... – ninguém respondeu nada. – Hem, Tenente?

– O pessoal do IBAMA tentou pegá-los, Senhor – respondeu Mascarenhas com uma estranha voz rouca. – Nós temos contato com um dos funcionários deste órgão. Ele alega que os estrangeiros pertencem a certas ONGs; aparentemente todos têm permissão para trabalhar no nosso país.

– Aparentemente? Vocês só podem confiar em si mesmos!...

– Há brasileiros nessas ONGs também, Senhor. De fato, algumas delas estão presentes em todas as partes do mundo; outras atuam só na região da Amazônia...

– E o senhor não acha que isso seja suspeito?

 – Positivo, Senhor. Entretanto o IBAMA, a Polícia Federal também, não apuraram nada de irregular com essas ONGs. Os caras estão limpos, Coronel.

– Vocês têm certeza de que os gringos estão realmente aliciando os índios?

– Correm boatos em relação a isso em Boa Vista, Senhor – declarou Siboldi impassível. – Outros funcionários de órgãos públicos, como FUNAI, INCRA, confirmam isto oficiosamente. Foi o que pudemos apurar.

– Bom, nesse angu tem caroço, não tenho a menor dúvida – sentenciou Paglia. – Sabemos que as riquezas da nossa Amazônia são inumeráveis e despertam a cobiça do mundo todo, mas precisamos separar o que é concreto do que é lenda urbana. Não podemos esperar que outros órgãos do governo façam o trabalho por nós... E o senhor, Sargento Gusmão, o senhor não meteu a sua colher neste pirão – voltava a declarar Paglia com largo sorriso. 

– Bom, Coronel, não são os gringos que me preocupam... – disse Gusmão sério.

– Quem é então, Sargento?

– Quem me garante que os gringos não têm informação de toda a movimentação secreta que se faz em função deles?

– Espiões?

Gusmão confirmou com um gesto.

– Mas quem seriam esses espiões? – perguntou Paglia bastante encafifado.

– Poderia ser qualquer um de nós, Senhor – completou Gusmão enigmático.

– Por favor, Sargento. Eu gostaria de ouvir a sua teoria...

– Há um bocado de gente preocupada com os índios na Raposa Serra do Sol, Senhor...

– Continue, Gusmão.

– Eu... Aliás, Senhor, isso é uma coisa que nós temos conversado bastante... – Gusmão relacionou os companheiros com um gesto abrangente da mão – principalmente com sua orientação, Senhor... – completou o velho sargento cheio de retórica. – O perímetro da reserva que foi demarcado criou uma espécie de Estado dentro de outro... Do jeito que isso foi feito é um risco à segurança nacional, Senhor...

– É verdade, sargento – tornou Paglia profundamente sério. – Nossas reuniões têm discorrido exatamente sobre isso... A proximidade da reserva Raposa Serra do Sol com a Venezuela e com a República da Guiana tornam aquela área profundamente atrativa para os interesses estrangeiros...

– Interesses estratégicos, Comandante – imiscui-se Siboldi. – A região é rica em urânio, ouro, diamantes!

 – Já parlamentei sobre isto com o Comando da Amazônia, mas eles acharam minhas preocupações alarmistas, embora concordem em tese com ela...

– E nós temos outro problema, Senhor... – volveu Siboldi.

– Outro problema? – redargüiu Paglia com a pulga atrás da orelha.

– Um probleminha técnico...

– Não estou sabendo, Capitão...

– Corrientes, Senhor...

– O Tenente Corrientes?!

– Positivo, Senhor.

– Qual o “probleminha” com o Tenente Corrientes, Siboldi?

 – Eu o acho muito “independente” para a missão, Senhor.

– Eu já tive ocasião de testemunhar as opiniões pouco ortodoxas do Tenente Corrientes, Capitão. No entanto, não se preocupe. Não acredito que isto vá se tornar um problema para nosso trabalho. Espero que o senhor entenda isso, Siboldi.

Ele não respondeu imediatamente ao seu comandante, o que significava uma postura afirmativa.

Na relação pessoal entre Siboldi e Corrientes, entretanto, o capitão possuía sua própria maneira de agir...

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