quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE II, CAPÍTULO 2.


Tanaka Osumi não se interessava por passarinhos...

Até gostava, nas horas vagas, lá na sua casa de campo no interior do Japão, com sua bela e tradicional família japonesa, que jamais havia visitado o Brasil, embora até ouvisse falar naquele país exótico, porque muitos descendentes viviam por lá...

No entanto, no Japão tradicional, a coisa era bem diferente...

O que mais se falava do Brasil por aquelas plagas, mas não na região onde viviam os Osumis, era Zico, Carnaval, Tropicalismo e Gisele Bündchen...

Alguns japoneses de olhinhos puxados ainda comentavam, com certo pudor, é verdade, porque eles eram muito educados, que, aqui no Brasil, o que dava mesmo era corrupção e impunidade...  

E o que as íris de Tanaka mais gostavam de ver eram os cifrões das moedas correntes pelo mundo, traduzidas em polpudos yens japoneses...

Sim, os interesses de Tanaka eram bem como Mister Taylor havia citado...

A exportação do arroz que era produzido às margens da reserva Raposa Serra do Sol, uma das maiores fontes de conflito da região por causa dos índios, dava a Tanaka um lucro exorbitante! Mas ele não se metia em interesses políticos de países amigos...

O seu trabalho gerava divisas pelo mundo afora, mantinha empregos, fazia a roda girar, e era isto o que importava, embora ele gostasse deste Brasil encantador que só dava lucro e ninguém queria largar, apesar de toda crise internacional, uma crise que transcendia a economia mundial, o que nenhum dos confrades de Tanaka jamais iria admitir...

Ou seja, Tanaka Osumi era um homem de negócios por excelência, convicto daquilo que fazia, e sempre pronto a fazer o próximo lance, e que isso lhe custasse o menos possível, pois, afinal, sempre existe a possibilidade de se barganhar, e nada melhor do que o Brasil, terra fértil para negócios baratos e lucrativos!

Talvez o Brasil fosse a terra mais promissora do futuro, isto é, desde que nenhum engraçadinho ousasse mudar as regras do jogo, isso Tanaka jamais admitiria, e todo o conglomerado financeiro mundial assinava embaixo.

 Tanaka era um dos maiores amigos do casal Taylor no Brasil, e em Little Town, na Guiana, onde o casal tinha sua residência fixa, o japonês se “escondia” às vezes.

Volta e meia estavam os três reunidos em festas em Manaus, Belém, Boa Vista, onde quer que elas estivessem acontecendo...

Apesar dos Taylors não morarem no Brasil oficialmente, eles falavam o português muito bem, e tinham livre acesso para ir e vir à vontade, pois o seu trabalho era reconhecido por toda a comunidade amazônica. Ambos eram autoridades em suas áreas técnicas no mundo todo, e tinham também muitas amizades nesta região, que englobava mais de um país da América do Sul.

Mas o que os Taylors tinham de tão aprazível para os olhos ávidos do japonês?

Apesar de viverem enfurnados lá nos cafundós do Judas da selva amazônica, os Taylors eram muito bem relacionados dentro e fora do Brasil, e com isto Tanaka dispunha de enormes possibilidades de penetração política em terras tupiniquins e alhures.

Mais contatos significavam também novas possibilidades de expansão em negócios, e o que há de mal nisto?...

Absolutamente nada.

Considerando ainda que Tanaka fosse um defensor férreo das linhas mestras do pensamento samurai, ele havia assimilado, todavia, um dos pilares fundamentais do modus operandi da sociedade brasileira, e por isso sabia que quem tem padrinhos não morre pagão.

Tanaka ficava, às vezes, uns dois meses sem pôr os pés no Japão, envolvido até o pescoço com os negócios, e nisto também ele assimilara uma das maiores manias nacionais, principalmente para os homens ricos de norte a sul, que era a de possuir uma amante...

Ela atendia pelo nome de Marina Seixas, e pertencia a uma das mais tradicionais famílias da região, que conhecia o japonês e sua história, e ainda assim não criava caso, ao contrário, uma vez que a bela morena, com ascendência inegavelmente indígena, de uma beleza estonteante, vivendo a tira colo com ele para cima e para baixo, só iria granjear, segundo a família Seixas, bons dividendos para todos, o que não desagradava nem mesmo a Tanaka, uma vez que sua família, lá no recanto mais inóspito de uma ilha no Pacífico, jamais ouviria falar das aventuras deste samurai às avessas, e, em relação à família de Marina, e mesmo dela própria, ele estava pouco se lixando!

Porém, estas ligações perigosas, mais dia menos dia, poderiam desembocar num grande escândalo, mas ninguém parecia se importar com isso, exceto os Taylors...

Aparentemente, claro.

– E essa menina, Tanaka... – perguntou-lhe Susan, num dia em que ele os visitava em sua bela casa em Little Town. – Não se incomoda mesmo de você ser casado?

– Acho que não – respondeu o japa taxativo, com algum orgulho por enxergar sua sapiência oriental, e certa superioridade imperialista. – Digamos que ela – e os pais também, claro – esperam aumentar seu rol de influência política na região...

– Mais ainda?! – perguntou, por sua vez, Charles Taylor, com a fala meio torta devido ao tradicional cachimbo inglês enfiado no canto da boca, embora com certa ênfase, sentado numa elegante Berger italiana com couro americano marrom escuro legítimo, no calor de sua suntuosa biblioteca e suas encadernações francesas do século XIX, e uma xícara de café, este genuinamente brasileiro, bem ao lado da mesinha de centro, onde outras duas xícaras repousavam, uma pela metade, exatamente a de Tanaka, porque ele preferia o saquê, a outra da própria Miss Taylor.

Tanaka limitou-se a rir da entonação um tanto sarcástica de Charles Taylor, a quem ele supunha conhecer muito bem, não entrando em detalhes acerca da verossimilhança ou não da assertiva.

– Mas e os pais dessa garota? – insistia Susan, num interesse que transcendia a esfera da fofoca – Eles devem saber que você nunca poderá assumir nenhum compromisso com a filha deles, o que torna este interesse meio inútil...

Tanaka voltou a sorrir. Era um homem no auge do seu autodomínio capitalista, da pujança senhorial, de alguém que pode até mudar o rumo das revoluções solares.

– Inútil? – replicou ele. – Esse povo tem uma esperança insana por um Deus que julga brasileiro acima de todas as outras raças! Vocês já viram maior absurdo?

Charles Taylor assentiu com o cachimbo na boca.

– Eu sim... Foi há quase dois séculos, quando o povo inglês se julgava privilegiado, até mesmo mais que aos judeus...

– Ou que os brasileiros – e Tanaka voltava a sorrir, zombeteiramente.

– Mas será que essa família tem mesmo alguma esperança de vê-la casada com você? – volveu Susan, no entanto estava claro que ela queria dizer muito mais. – Eu digo isso, porque, sendo esta família, como você mesmo acabou de dizer, uma das mais tradicionais de Boa Vista, não deve ter muita simpatia ao assistir a filha única desfilar com um homem casado...

– Susan – e aqui Tanaka fez uma pausa grave, delicada, porém ameaçadora para as pretensões dos Seixas. – Eu não tenho o menor interesse em me desfazer do meu casamento. Nunca passou pela minha cabeça abandonar a minha família para residir aqui no Brasil... E ela sabe disso...

– Mas será que a família dela sabe? – lembrou Susan bem a propósito.

 – Bom... Isto não é problema meu...

– Em muitas ocasiões, meu samurai, nós vemos a realidade de um jeito próprio, e que não necessariamente é encarada da mesma forma pelos outros – a fumaça expelida pelo cachimbo de Charles parecia rir-se daquela filosofia pela metade.

Não houve réplica por parte do japonês.

– Olha qu’eu já vi muito paxá descendo do seu trono engalanado, meu caro – completou Charles fumacento.

– Você está brincando comigo, Charles! – volveu um Tanaka indignado. – Esta situação não foi criada por mim... E eu deixei isto bem claro desde o começo!...

– Eu o entendo perfeitamente, meu caro Tanaka – continuou Charles, fumacento. – Além disso, você seria um tolo se largasse a sua... Como é mesmo o nome de sua esposa, Tanaka?

– Omiko – respondeu ele curto e grosso.

– É um belo nome, sem dúvida... Como você poderia largar a sua Omiko por esta... Não gosto desta alcunha, mas vá lá, é como todo mundo costuma denominar no sentido pejorativo do termo...

– Cucaracha – disse Susan sem rodeios.

– Obrigado, minha amada – retrucou Charles muito corado. – Na realidade é o tipo de coisa que nós, os líderes do mundo, costumamos pesar na balança...

– Não é isso que eu levo em consideração – respondeu Tanaka sem pestanejar. – É claro que nossas diferenças culturais têm o seu peso, mas... Até quando eu estarei no Brasil?

– Enquanto os negócios prosperarem – disse Susan com uma pontada de malícia.

– Estou como vocês... – devolveu o japonês. – De passagem.       

– Neste ponto permita-me discordar de você, meu jovem! – replicou Charles com jovialidade, mas sem esconder certo incômodo frívolo. – Eu não sei se eu e minha querida Susan partiremos desta região algum dia... Nós adoramos isto daqui!

Susan “Chapman” Taylor olhou para o marido com certa dúvida naqueles olhinhos azuis piscina. De certa forma ela até concordava com ele, mas deixou transparecer ao japonês que neste assunto não havia unanimidade entre o império britânico.

– Por falar nisto, Tanaka – volveu Charles com suas baforadas perfumosas. – Como vão os negócios nesta temporada de caça?

– Na mesma – retrucou o japonês com indiferença infinita. Nem parecia que ele amava o dinheiro.

– Qual o grande empreendimento do momento? – insistiu o inglês.

– O mesmo de sempre – disse o japonês com uma malícia oculta, mas que Susan percebeu no ato. – Mas o melhor negócio de todos, aquele que pode transformar a Amazônia num pote de ouro, seria, talvez, criar uma área de reserva internacional na Amazônia...  

– Como assim, Tanaka?! – perguntou ela, curiosa por natureza, disfarçando, porém, seu real interesse pelo assunto. – Como poderíamos transformar uma região que pertence a um punhado de países, numa reserva internacional?

– Então!... O primeiro passo já foi dado pela história... Não sei como poderíamos viabilizar isto do ponto de vista burocrático, mas sei que deveríamos.

– Todos nós sabemos que a Amazônia vale muito mais do que a floresta em si, mas se nós vamos transformá-la numa área de reserva internacional, ela não poderá ser explorada pelas indústrias...

– Neste caso – imiscuiu-se Charles, cortando a esposa, sorrindo e soltando espirais de fumaça para o ar privilegiado do lugar, porém dirigindo-se a Tanaka – Sou obrigado a concordar com minha esposa. Todos nós sabemos que a legislação no Brasil é frouxa em vários sentidos, o que faz com que as madeireiras, por exemplo, possam explorar este filão praticamente impunes, porém, desde o momento que nós criarmos uma área de reserva internacional por aqui, a comercialização da madeira cairá praticamente à zero, haja vista que quase a maioria dos ambientalistas diz ser este um dos principais problemas da floresta desde Chico Mendes.

Susan olhou para Charles, depois para Tanaka, a fim de presenciar se o japonês acusava o golpe, porém qual não foi sua surpresa ao vê-lo esboçar um sorriso tosco e enigmático, como o do jogador que acaba de se certificar que na próxima jogada sairá vencedor.

– Vocês não estão me entendendo...

– Explique-nos Tanaka – incentivou Charles, maliciosamente.

– Estou falando de uma falsa reserva, obviamente, onde nós possamos arrancar todas as riquezas que a Amazônia possa nos proporcionar...

– Nós?! – Susan fingiu não entender.

– Nós, as nações ricas e empreendedoras, claro! Há muito para fazermos na Amazônia, gente...

– Não creio, meu caro Tanaka. Não creio, sinceramente, que este seja um empreendimento viável, e nem que a opinião pública mundial veja isto com bons olhos...

– É óbvio que não, Charles! Mas manobrando as pessoas certas, eu acho que nós conseguimos dar um jeitinho, afinal o Brasil é a terra do jeitinho...

Tanaka não percebera que a conversa alcançara um terreno incômodo para os dois cientistas, e, facilitado pela boa comida e bebida, continuou falando até tarde, até que chegou o momento de ir-se embora.

Depois de encerrada a visita, tarde da noite, Susan Taylor ainda teve tempo de observar para seu marido:

– É bastante ambicioso nosso amigo japonês, né?

– Muito – concordou o inglês que nunca perdia o bom humor. – Esses homens de negócios não conseguem enxergar outra coisa que não seja uma boa fonte de renda onde quer que ela esteja. São capazes de qualquer coisa para atingir este objetivo...

– Será que nós devemos considerá-lo mesmo um amigo, Charles, meu bem?

– Querida, vou lhe dizer uma coisa que talvez lhe alegre o coração... Eu não consigo desgostar dele.

Susan abriu um largo sorriso antes de deitar para dormir.

– Eu também gosto muito dele... – disse ela, deitando-se. Charles anuiu deitado, todo coberto, com seu gorrinho inglês e tudo. Ela continuou sorrindo e deu-lhe um beijo caloroso no rosto, dizendo: – Mas espero, sinceramente, que a idéia de transformar a Amazônia numa reserva internacional fracasse.

A luz apagou-se. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE II, CAPÍTULO 1


Alguns palavrões em inglês, absolutamente inéditos para uma audiência pouco acostumada à língua, encheram o ar da floresta.

       Nenhum daqueles pássaros, entre miríades de outros seres não menos interessantes, ligou para as advertências monossilábicas que agora se seguiam às imprecações indignadas daquele homem praticamente nu, embora o tom da pele o denunciasse como um estrangeiro.

O motivo de tanta irritação era simples: Mister Taylor estava enredado na própria rede...

Ele tentava pegar alguns incautos passarinhos para seu mais recente estudo sobre as migrações das espécies ornitológicas...

Uma série de gargalhadas femininas de boa cepa, divertidas mesmo, logo se seguiram aos reclames internacionais.

– Ora veja você, Charles! O caçador tornou-se a caça!

– Você quer deixar de bancar a engraçadinha e me ajudar a sair daqui?

O tom de voz de Charles Taylor ainda era de irritação.

A propósito. A mulher que havia lhe falado, em português, porque eles o entendiam e falavam com muito prazer, era Misses Susan Taylor, uma grande biologista, que ajudava o ornitólogo e marido no trabalho de campo há já três décadas.

Misses e Mister Taylor já não eram garotinhos, embora gostassem daquele ritual célebre de esconderem a idade, orçada de qualquer maneira lá pela casa dos sessenta, é o que se dizia a boca pequena, na pequena comunidade onde viviam, em Little Town, República da Guiana.

– Acho melhor cortar a rede – volveu Susan sintomaticamente. – Oh, meu amor! Você se enredou de tal forma que não vejo outro jeito de tirá-lo daí...

– Tira essa merda logo, Susan! – esta frase foi proferida em português mesmo, com toda a ênfase que a situação exigia. – Não importa se estragar!

– Tá bom... – dizia ela sem perder o bom humor. – Vou cortá-la...

Logo depois Mister Taylor já estava livre da rede.

– Mas como você foi se enrolar na rede, Charles?

– Eu estava observando aquele casal de uirapurus de ontem, você lembra deles?... Pois eu tinha me esquecido da posição exata onde tinha armado essa merda!... Eu fiquei puto com a minha distração, aí saí arrastando a porra da rede que nem um alucinado...

– Calma, Charles! Nós temos dúzias destas redes em casa!

– Eu sei que temos, Sue! Só me preocupa a minha desatenção dos últimos tempos... Acho que estou ficando velho, sabe...

– É natural, meu querido. É óbvio que nós já não somos tão jovens de quando aqui chegamos... Você se lembra? Foi na década de oitenta...

– Se me lembro? Claro que eu me lembro! Como poderia esquecer. Acho que eu tive a mesma sensação dos portugueses há cinco séculos, a de ter encontrado o paraíso...

– Sabe de uma coisa, Charles? Eu ainda penso que estamos nele, apesar de tudo. Apesar do desmatamento, da ganância humana, da ignorância...

– Se nós não tomarmos muito cuidado com isto aqui, em poucas décadas a maior parte deste nosso paraíso terá desaparecido...

– Você acredita mesmo nisso?

– Olha o que nós fizemos com as florestas da maioria do planeta... O que os próprios brasileiros fizeram com a Mata Atlântica... Às vezes eu tenho muito medo, Sue.

– Você acha que pessoas como o Tanaka, por exemplo, deixariam?

– O Tanaka?! Aquele japonês só quer enriquecer, meu anjo! Ele não tem qualquer comprometimento com a sobrevivência da floresta, o que ele quer é engordar sua já bojuda conta bancária no Japão.

– Você está sendo injusto com o Tanaka, Charles! Eu gosto muito dele. Ele é muito nosso amigo...

– Nosso amigo, é?

– O trabalho dele depende diretamente da floresta. Se não houver Amazônia, ele perde a “bojuda conta bancária no Japão”.

– Ele não depende da floresta, Susan! Que espécie de blasfêmia é esta que você está dizendo? Além do mais, se um comerciante perde sua fonte de renda ele migra pra próxima...

– Não o Tanaka, Charles! O Tanaka está tão envolvido com isto daqui quanto nós...

– O negócio do Tanaka é exportar arroz, minha querida. Mais nada além disso.

– Não seja tão exigente com ele, Charles Taylor. É preciso que se tenha um pouquinho de benevolência...

– E uma pitada de pusilanimidade também, não é?

– Deixe de ser tão pessimista, Charles! O mundo sobreviverá a nós...

– Espero que sim, my darling! E você será canonizada pela Igreja Católica em 2100... “Santa Susan Chapman”...

– Deixe de ironias, seu bobo. Nós ainda temos muito que fazer por hoje...

– Mas logo agora que estávamos tratando da sua canonização?

– Recolha suas coisas, Doutor Taylor! Nossos passarinhos nos esperam em casa...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - unidade I, capítulo 7


7



E foi numa tarde após tantas outras que se deu o primeiro confronto...

Felipe e Celha, alvos já de certo disse-me-disse, algumas bocas maledicentes garantindo, inclusive, que Celha já era comida do Comandante Paglia, agora parecia oferecer os seus favores ao rebelde Felipe, quando as duas facções depararam-se no meio do pátio do quartel...

Foi um arremate breve, mas que causou estrago.

Disse o Capitão Siboldi com malícia algo ferina, dirigindo-se ao Tenente Corrientes:

– E aí? Continua escutando atrás das portas, filhinho de papai?

Havia um clima de animosidade explícita, prestes a explodir num conflito mais grave a qualquer momento...

Entretanto vários dias de relativa paz se passaram sem que ninguém chegasse ao impasse final, àquilo que ninguém gostaria que acontecesse.

Celha, como possuísse uma compreensão maior do todo que a do companheiro, e preparação psicológica também, conseguiu evitar que Felipe cedesse às provocações, porque era justamente o que almejava Siboldi.

Num belo dia os dois voltaram a se esbarrar no corredor, numa hora em que o serviço já estava encerrado. Contudo, para piorar a situação, Felipe estava de ovo virado, como sói dizer. Houve um principio de tumulto. Felipe ameaçou partir pra cima do Capitão, o que seria uma clara demonstração de indisciplina, punida exemplarmente por qualquer superior. Porém houve atenuantes: Felipe não chegou a se engalfinhar com o seu superior, porque foi detido por sua amiga Celha, pelo Sargento Gusmão e o Tenente Mascarenhas, ambos da corriola de Siboldi, mas ainda assim a refrega não podia passar em branco...

Felipe e Celha foram recebidos no gabinete particular do Coronel Paglia.

– O que, exatamente, está acontecendo entre vocês, Tenente Corrientes?... Eu já soube de várias versões, mas decidi não acreditar em nenhuma delas até ouvir a sua primeiro.

Era um interrogatório, não havia dúvida! E nem poderia ser diferente, haja vista que o que estava em jogo neste momento era a ordem dentro de um quartel militar, e ordem era um artigo fundamental para qualquer instituição desta natureza, porém, havia um clima de camaradagem por parte do Coronel Paglia, próprio do seu temperamento conciliador, vaselinamente bem entrevisto pela Tenente Nascimento.

– Apenas e tão somente um desentendimento bairrista sem maiores proporções, Comandante – arrematou Celha, tergiversando.

 – Está me parecendo isso também – concordou Paglia com aquele eterno sorriso de bom humor. – Mas eu queria a sua opinião a este respeito – completou, apontando a boca cheia de dentes branquinhos para Felipe.

Ele demorou muito a engatar a primeira marcha, mas enfim pegou.

– Siboldi é daqueles paulistas que se acham mais espertos do que qualquer outro brasileiro, só que ele não entende que malandragem não se aprende na escola – arrematou Felipe deliberadamente omisso.

– Vamos fazer uma coisa, Corrientes... – retrucou Paglia com aquele sorrisinho divertido e insistente que chegou a irritar um pouco Felipe por achá-lo um tanto forçado naqueles lábios grossos quebradiços. – Vamos esquecer esta bobagem toda, tá? – de repente, aquele sorriso fácil desapareceu da expressão matreira do Coronel Paglia, e um ar de seriedade substituiu aquel’outro. – Até porque isto pode atrapalhar o rendimento de vocês nas ações que estamos desenvolvendo, o que me obrigaria a intervir de maneira severa contra os dois, o que eu espero não ter de fazer. Não posso mexer no nosso time agora.  

– Além da questão Raposa Serra do Sol, Coronel, existe alguma questão “extra” em andamento? – perguntou Celha com alguma malícia.

Paglia observou-a atentamente antes de responder, uma expressão absolutamente indecifrável.

– Nós trabalhamos num quadrante de fronteiras, Tenente Nascimento – volveu Paglia categórico, porém ameno, disfarçando o que ia ao intimo. – Estamos sempre prontos às missões de emergência. Bem, Corrientes, não ouvi sua resposta, garoto...

– Claro que sim, Coronel – respondeu Felipe meio cabisbaixo, mas não tanto. – Aquilo foi uma bobagem de nossa parte...

– Como toda grande família, sempre há um arranca rabo – Paglia voltou imediatamente ao seu tom habitual. – Deixe o Capitão Siboldi comigo – acrescentou relaxado, cínico, brincalhão.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - unidade I - capítulo 6


6



Felipe não...

Ele estivera em atividade o tempo todo na ausência de sua grande amiga Celha Regina...

Porém as preocupações de Felipe Corrientes eram de outra natureza...

Celha não ocupava seus pensamentos com tanta intensidade...

Quer dizer, não era bem assim, pelo menos não tão exato matematicamente falando, mas o fato é que a mente de Felipe trabalhava também em outras dimensões do presente...

Os Macuxis, afinal de contas, balançavam toda a estrutura de uma nação. Mal governada, é verdade, mal administrada, mal educada, culturalmente mal desenvolvida, mal explorada...

Enfim...

Um amontoado sem forma, o que talvez não fosse de todo ruim, porquanto todas as demais grandes nações do planeta estivessem numa decadência inexorável, enquanto que o Brasil ainda tinha muito a ganhar com o tempo...

Era isto.

Mas Felipe não tecia a rede em ínfimos fios, até por uma questão de clareza, haja vista que o seu temperamento era o ideal para uma guinada de 360°, no entanto...

Bem. Ele tinha uma missão a cumprir e se agarrava a isto de forma atroz. Jamais abandonaria o barco, acontecesse o que acontecesse...

E foi numa dessas idas e vindas tão pouco descontraídas que ele escutou aquilo que não deveria...

A porta do dormitório estava aberta. Era bastante tarde para a rígida disciplina militar, mas ele estava ali para contrariar padrões estabelecidos...

As vozes pareciam-se às de Siboldi e Gusmão; ele não tinha muita certeza, embora o silêncio reinante não lhe permitisse margem a erros...

Ele deteve-se instintivamente estático no corredor, às escondidas do mundo, ninguém por ali, tudo silencioso, então ouviu Siboldi dizer:

– Eu disse que você não devia passar essas informações ao A6. Nós somos meros operários nesta missão. Nem classificação em código nós temos, pra você ver...

Tudo levava a crer que o capitão Ernesto Siboldi passava uma sarabanda no sargento Gusmão, mas o motivo...

Felipe nem imaginava, embora a surpresa fosse enorme...

– Ele vai nos fritar se souber – voltava a advertir Siboldi.

E agora? O que fazer?

Antes que Felipe tomasse qualquer resolução, foi surpreendido por uma presença...

– Corrientes! – berrou Mascarenhas, tão surpreso quanto seu colega. Os dois se encararam com sentimentos bem distintos, porque o terror ameaçou tomar conta de todo o ser de Felipe, ao passo que a surpresa fora tão gigantesca que chegara quase a paralisar a respiração de Mascarenhas.

– Que que você está fazendo aqui?!

Felipe cacarejou, ou melhor, gargarejou, melhor ainda, gaguejou, mas acabou se saindo bem demais...

– Eu?!... Nada, ué!...

– Escutando atrás das portas, mano!!

– Eu?! – repetiu Felipe, robótico, bobônico. – Não!...

– Então o que você está fazendo por aqui à uma hora dessas? – Mascarenhas insistia com autoridade, embora seu posto fosse exatamente igual ao dele.

– Eu ia ao banheiro...

– Ia?

– Não, vou...

– Então vai de uma vez, porra!

Trêmulo, exasperadamente acuado, um medo pânico varrendo-lhe o espírito, ele saiu sem pensar.

Mascarenhas olhou-o numa estranha disposição apática, próxima àquela da morte certa, entrando no dormitório em seguida.

Quando Celha voltou, dois dias depois, a primeira oportunidade que teve Felipe falou-lhe a respeito da conversa ouvida nos bastidores em tom de desabafo.

Ele estava lívido, sem cor, como uma fruta madura recém- chupada pelo caruncho amoral, porém, Celha, percebendo seu estado deplorável, tratou de acalmar-lhe os ânimos.

– Isso pode significar tantas coisas, Felipe, que eu, se fosse você, nem perderia tempo em decifrar o conteúdo...

– Não, com certeza. Mas porque o tal de A6 ia querer foder os caras? E o significa A6?

– Volto a dizer: isso pode significar uma porrada de coisas, amigo...

– Mas também pode ter relação com aquilo que nós estamos investigando...

– Pode – retrucou Celha que não tinha nada de mais importante a dizer, o que poderia significar “é”, “tanto faz”, “sei lá” ou qualquer coisa.

– Mas que é esquisito, é – insistiu Felipe, como numa febre solene, obsessiva, carrapativa, etc. – Isso vai de encontro àquela sensação de catástrofe iminente que eu venho sentindo...

– Não vamos nos precipitar – volveu Celha a título de nada, fria como uma pedra de gelo. – A pior coisa que pode acontecer nessas situações é pegar uma conversa pela metade... ou pelo fim. Podem-se tirar mil e uma conclusões, e todas elas erradas.

Não se aprofundaram mais neste assunto...

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - unidade I - capítulo 5


Um dia depois Celha saiu de folga...

Voltava a sua Recife natal, e Felipe voltou a pensar na sua angústia inexplicável, num Siboldi rancoroso e um ódio incompreensível, e nos Macuxis incomunicáveis...

Muitas eram as incógnitas desta equação maluca, e talvez ele não tivesse a solução para ela...

Felipe se atrapalhava com os logaritmos absurdos de uma existência malfadadamente ingrata, tudo isso num sentido filosoficamente abstrato, abrangente, e Felipe não possuía as ferramentas apropriadas para enxergar através das nuvens falhas da individualidade. O resultado final estava-lhe ao alcance das mãos; tosco, é verdade, mas ainda assim assimilável...

Celha Nascimento, no entanto, procurava se exprimir, pelo menos para consigo mesma, com o máximo de clareza possível, neste obscuro mundo masculino...

Ela sabia perfeitamente que Felipe era um ser “casadíssimo!”... Ele mostrara a ela uma foto da esposa, e ninguém anda com a foto de alguém na carteira se não gosta desta pessoa... Por mais que Celha achasse isso démodé não podia desconsiderar, ao mesmo tempo, a importância deste simples fato...       Lindíssima!...

A tal esposa...

Entretanto, Celha chegou a cogitar numa trama infantil de Felipe, para impressionar, porém logo depois descartou tal possibilidade. Felipe não era o tipo de homem que interpretava papeis falsos futilmente na frente de uma mulher... Na verdade ela duvidava disso, ou seja, ele só podia ser mesmo casado...

Mas será que era um homem feliz?...

Às vezes ela pensava que não...

Outras vezes...

Não tinha certeza...

Era complicado...

Felipe era um homem fechado a maior parte do tempo, salvo naqueles rompantes de indignação gratuita... Na verdade, ela sabia que esta indignação possuía alta dose de fundamento racional... Algo que estava acima da razão social a qual Felipe pertencia, extrapolando toda e qualquer condição estereotipada, porém, mesmo assim, ela custava a entender o porquê daquela condição de revolta...

Não... Realmente não podia ser.

Felipe possuía tudo na vida. Não tinha razão para se revoltar contra o mundo, e tendo a experiência que adquirira com o sofrimento de uma casta esquecida do Estado há séculos, como era a sua, e no que se transformara hoje em dia, ela podia compreender em termos...

Apesar de que, como também se acostumara a observar, muitas vezes uma revolta como a que Felipe sentia, justamente era o resultado natural de aquele ter absoluto; o possuir sem medidas, sem luta, sem dificuldades, sem obstáculos, que muitas vezes trazem um resultado oposto na educação de um adolescente, na formação de um adulto...

As manchetes dos jornais estavam cheias de notícias como estas...

As famílias idem.

Quando já se passou por certas situações na vida, situações extremas, como a de Celha Regina, e ainda por cima sendo mulher, uma mulher excluída naturalmente por condições sociais, atingindo patamares que uma pessoa nesta condição jamais imaginou que poderia atingir, começa-se a ver certas coisas que poucos mortais na face da Terra poderão assistir então se compreende que o homem revoltado, na realidade, é a única condição sensata que existe no mundo...

Engraçado...

Ao mesmo tempo, e apesar dos pesares, Felipe dava todos os indícios de ser um sujeito “companheirão”, amigo dos seus amigos, solidário, compreensivo, carinhoso, embora excessivamente mimado, teimoso quando contrariado, mas sutil em certas colocações, e todas aquelas coisas que as mulheres estão cansadas de falar, mas que nunca encontram...

Porque também não procuram.

Escravizam-se e acorrentam-se a um arquétipo, que nunca sairá das páginas de revistas, ou seja, uma coisa só para ser contemplada com a distância dos olhos do desejo, e não sentida na pele com sua intensidade libertadora...

Não é uma questão de incompetência, mas é porque a nossa sociedade trabalha em segredo para que todos nós estejamos isolados, solitários e infelizes...

Este é o verdadeiro papel da sociedade.

Celha acreditava que o dela era não deixar que ninguém se revoltasse contra esta condição...

Voltando a vaca fria, com toda a certeza do mundo, Celha sabia que Felipe abrigava um desejo secreto em relação a ela...

Tão secreto como a natureza das coisas, dos átomos; um segredo que ele pensava secreto, mas não o era...  

Como todo homem tímido, Felipe pecava por clareza na hora de deixar o sentimento transbordar em ação...

Mas ele possuía algo de muito importante, na opinião de Celha Regina: Felipe não era um homem inclinado a aventuras fora do casamento, mesmo que não fosse feliz com a esposa, fato que Celha tinha quase a certeza...

A timidez, esta doença da alma timorata, deixava-o inseguro para exprimir palavras simples de amor, a coisa mais inconveniente na visão dela...

Quanta infelicidade não percorria o universo graças a esta merda chamada hesitação do desejo profundo!...

 Essas e outras impressões perpassavam a mente de Celha enquanto ela ia vislumbrando o panorama acima do Cerrado brasileiro, da Caatinga interminável; olhar ao mesmo tempo de prazer e melancolia, um sentimento que todo nordestino traz em si no coração cigano...

Ela não sabia que rumo exatamente tomaria a sua investigação a partir daqui, pois lá no 7º PEF todos pensavam nela como mais um oficial do exército brasileiro e só...

Quando na verdade sua identidade real estava disfarçada a serviço de um poder transnacional...

Ela ficara indignada contra as nuvens, na falta de um objetivo concreto para despejar sua ira...

Ela também era humana, pensava mais uma vez, ainda sobre o vislumbre da paisagem verde fechada abaixo de si... E gostava um bocado de Felipe, mas o que ela iria dizer a ele?...

“Acontece, ‘Fê’”...

Ela adorava chamá-lo assim...

Dava um tom de intimidade, uma intimidade que seria muito bem vinda...

Porém perigosa.

 “Acontece, Fê, que eu não sou quem você pensa qu’eu sou”...

Qual seria sua reação?...

Ele não entenderia, claro...

“Quer dizer, sou, mas não de verdade”...

Não... Definitivamente ele não entenderia.

 “Isto não tem nada a ver com os meus sentimentos em relação a você, mas”...

É...

Definitivamente...

“Não me peça pra explicar aquilo que não posso fazer sob juramento”... 

Mas porque deveria imaginar aquilo tudo?...

E ela pensou em Deus...

Um Deus em que não acreditava.

Gostava muito dele...

De Felipe. Demasiadamente talvez... Porque não aproveitar então? Mas uma coisa era o seu trabalho, e outra bem diferente o seu tesão...

Ela não podia se prender a ninguém, esta era a questão. Amanhã poderia ser designada pro...

Sei lá...

Turquestão...

Aí alguém teria que matá-la aqui no Brasil...

Institucionalmente falando, claro...

Mas ela sentia por ele aquele algo a mais que se tatua na pele para nunca mais apagar-se...

E o pensamento intensivo sobre Felipe, a sua indecisão atávica, a irritou de repente...  

A intuição dele, da mesma forma...  

Aquela manifestação feminina que todo homem deplora em si...

“O que estaria fazendo o Coronel Paglia, aquele safado?”...

“O sacana havia lhe dado uma senhora cantada no outro dia... Aquele sem vergonha!... Fica longe da família”...

“Os Macuxis estão muito bem orientados, realmente, mas”...

Então, de repente, muitas nuvens turvaram a visão estupidificante de Celha Regina. Ela procurou dormir um pouco, esquecer, recostar a cabeça na confortável poltrona nacional e talvez sonhar...

Então apagou...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - unidade I - capítulo 4


E não demorou muito para ele demonstrar isso...

Eles se reencontraram logo depois dessa reunião “tipo secreta”...

Siboldi cobrou de Felipe uma atitude mais “inteligente” em relação à missão que eles desempenhavam.

– Como assim “inteligente”, Capitão? – indagou Felipe inocentemente.

– Quando a gente pede a palavra a um superior – continuou Siboldi com algum menoscabo – supõe-se que esse “alguém” tem algo muito importante a acrescentar...

Celha, para variar, estava em companhia de Felipe, e todos os personagens se entreolhavam, uns um tanto quanto atônitos, outros tensos, cada qual, porém, num partido bem determinado.

– Algo importante a acrescentar ao sucesso de uma empresa coletiva – continuou Siboldi em tom de crítica. – Não há mais espaço pra picuinhas regionalistas ou atitudes individualistas, você está entendendo Corrientes?

– Não, Senhor.

– Você está me entendendo perfeitamente, Corrientes, mas eu vou ser mais claro ainda: dá próxima vez que você for falar besteira na frente dos índios, avisa antes, porque eu não o deixarei estragar o meu trabalho novamente... Compreendeu agora?

Siboldi, Mascarenhas e Gusmão se retiraram meio que bufando.

Felipe olhou para Celha e comentou estupefato:

– Viu só?

Celha estalou a língua preocupada.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - unidade I - capítulo 3


Todas as tentativas posteriores de entrar em contato com os macuxis esbarraram numa parede invisível.

Ao 7º PEF cabia um papel de passividade completa, o que desgostava sobremaneira seu comandante, Coronel Armando Paglia.

Paglia era um homem bastante carismático entre os seus comandados. Com uma envergadura privilegiada, mais de um metro e noventa de altura, cabelos meio grisalhos, porte atlético, pele muito branca, olhos claros simpáticos, costumava ser o primeiro nas ações florestais de rotina, pois aquela mata, dizia ele, era como se fosse o quintal de sua casa, embora a infância e adolescência tenham sido excessivamente urbanas, vividas na grande Curitiba, até ingressar no exército por influência do padrinho, oficial da mesma arma.

Armando Paglia viajara muito por este Brasil afora, sempre a serviço do país, que amava muito e colocava acima da razão de família, esta ainda residente em Curitiba.

Por essas e por outras, Paglia não podia admitir qualquer tipo de fracasso na missão de reconhecimento e identificação do provável agente inimigo, e convocara para uma reunião urgente três dos seus principais colaboradores no quartel.

Um deles era o capitão Ernesto Siboldi, que os leitores já conhecem, o outro era o Tenente Jorge Mascarenhas, um homem baixo, atarracado, cabelos castanhos claros, olhos verdes escuros. Alguns amigos diziam que um caminhão havia caído em cima dele, por isso ele tinha aquela aparência “amassada”. O terceiro se chamava Aníbal Gusmão, um negro forte, já com certa idade de serviços prestados ao exército e que aguardava a aposentadoria para muito breve na patente de Primeiro Sargento.

Após uma ladainha maçante, quando Paglia apelou para os sentimentos patrióticos dos seus comandados, Siboldi tentou se explicar...

– Não podemos fazer nada, Senhor – mas isto fora dito com certa angústia, cheio de dedos, porque Siboldi conhecia Paglia muito bem, e o fato do Coronel ser um homem simpático e carismático, só o tornava mais bravo numa hora de gravidade como esta. – Os índios são protegidos pela lei. Não podemos simplesmente invadir a reserva e obrigá-los a evitar os “gringos”. Não há como comprovar que eles estão sendo influenciados por estrangeiros a irem contra os interesses brasileiros, a não ser que nós pudéssemos gravar a movimentação deles na reserva. Mas como, se os índios não querem nos ver lá?... Pra todos os efeitos são turistas com seus passaportes em dia.

Paglia refletiu um minuto sobre o que acabava de ouvir e fez mais uma pergunta:

– Vocês já checaram esses passaportes pessoalmente?... – ninguém respondeu nada. – Hem, Tenente?

– O pessoal do IBAMA tentou pegá-los, Senhor – respondeu Mascarenhas com uma estranha voz rouca. – Nós temos contato com um dos funcionários deste órgão. Ele alega que os estrangeiros pertencem a certas ONGs; aparentemente todos têm permissão para trabalhar no nosso país.

– Aparentemente? Vocês só podem confiar em si mesmos!...

– Há brasileiros nessas ONGs também, Senhor. De fato, algumas delas estão presentes em todas as partes do mundo; outras atuam só na região da Amazônia...

– E o senhor não acha que isso seja suspeito?

 – Positivo, Senhor. Entretanto o IBAMA, a Polícia Federal também, não apuraram nada de irregular com essas ONGs. Os caras estão limpos, Coronel.

– Vocês têm certeza de que os gringos estão realmente aliciando os índios?

– Correm boatos em relação a isso em Boa Vista, Senhor – declarou Siboldi impassível. – Outros funcionários de órgãos públicos, como FUNAI, INCRA, confirmam isto oficiosamente. Foi o que pudemos apurar.

– Bom, nesse angu tem caroço, não tenho a menor dúvida – sentenciou Paglia. – Sabemos que as riquezas da nossa Amazônia são inumeráveis e despertam a cobiça do mundo todo, mas precisamos separar o que é concreto do que é lenda urbana. Não podemos esperar que outros órgãos do governo façam o trabalho por nós... E o senhor, Sargento Gusmão, o senhor não meteu a sua colher neste pirão – voltava a declarar Paglia com largo sorriso. 

– Bom, Coronel, não são os gringos que me preocupam... – disse Gusmão sério.

– Quem é então, Sargento?

– Quem me garante que os gringos não têm informação de toda a movimentação secreta que se faz em função deles?

– Espiões?

Gusmão confirmou com um gesto.

– Mas quem seriam esses espiões? – perguntou Paglia bastante encafifado.

– Poderia ser qualquer um de nós, Senhor – completou Gusmão enigmático.

– Por favor, Sargento. Eu gostaria de ouvir a sua teoria...

– Há um bocado de gente preocupada com os índios na Raposa Serra do Sol, Senhor...

– Continue, Gusmão.

– Eu... Aliás, Senhor, isso é uma coisa que nós temos conversado bastante... – Gusmão relacionou os companheiros com um gesto abrangente da mão – principalmente com sua orientação, Senhor... – completou o velho sargento cheio de retórica. – O perímetro da reserva que foi demarcado criou uma espécie de Estado dentro de outro... Do jeito que isso foi feito é um risco à segurança nacional, Senhor...

– É verdade, sargento – tornou Paglia profundamente sério. – Nossas reuniões têm discorrido exatamente sobre isso... A proximidade da reserva Raposa Serra do Sol com a Venezuela e com a República da Guiana tornam aquela área profundamente atrativa para os interesses estrangeiros...

– Interesses estratégicos, Comandante – imiscui-se Siboldi. – A região é rica em urânio, ouro, diamantes!

 – Já parlamentei sobre isto com o Comando da Amazônia, mas eles acharam minhas preocupações alarmistas, embora concordem em tese com ela...

– E nós temos outro problema, Senhor... – volveu Siboldi.

– Outro problema? – redargüiu Paglia com a pulga atrás da orelha.

– Um probleminha técnico...

– Não estou sabendo, Capitão...

– Corrientes, Senhor...

– O Tenente Corrientes?!

– Positivo, Senhor.

– Qual o “probleminha” com o Tenente Corrientes, Siboldi?

 – Eu o acho muito “independente” para a missão, Senhor.

– Eu já tive ocasião de testemunhar as opiniões pouco ortodoxas do Tenente Corrientes, Capitão. No entanto, não se preocupe. Não acredito que isto vá se tornar um problema para nosso trabalho. Espero que o senhor entenda isso, Siboldi.

Ele não respondeu imediatamente ao seu comandante, o que significava uma postura afirmativa.

Na relação pessoal entre Siboldi e Corrientes, entretanto, o capitão possuía sua própria maneira de agir...