quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE IV - CAPÍTULO 1


Tudo se desenrola conforme o curso natural das coisas. Nem um milímetro a mais, nem uma noite a menos; nem um cicio de um grilo tardio, nem o mugido de um macaco noturno, nada que possa alterar o divisor de águas estabelecido pelo ciclo cósmico, insanamente incompreensível para nós, meros mortais bebedores de leite.

       O certo é que a denúncia chegara na quinta-feira ao quartel  do 7º PEF, um dia depois do retorno de Felipe Corrientes à Uiramutã.

       E aí residia o mistério...

       Felipe decerto não encarou o problema por este prisma...

       No início.

       Assim como Celha Regina...

Nenhum dos dois, no momento exato que as ordens foram emitidas, podia imaginar o atalho que o destino impunha a eles, embora também neste caso, nada estivesse predeterminado...

       Nunca está.

Todo o batalhão estava de prontidão, embora nem todos fossem convocados para aquela missão especial.

Felipe, Celha, Mascarenhas, Gusmão e o capitão Siboldi seriam os líderes de um comando escalado para investigar um suposto acampamento de grileiros em plena reserva Raposa Serra do Sol.

À testa do grupo, o não menos conspícuo Ernesto Siboldi teria o encargo de comandar os bravos cavaleiros do século XXI, que não tinham uma triste figura, mas fariam feio o seu trabalho de desbravar as terras invadidas pelos aventureiros da reserva proibida...

Ponto...

Não o final...

Mas o início.

Ora! Quis o destino que os cinco personagens envolvidos numa confusãozinha de esquina estivessem juntinhos nesta missão, ainda sobre o assunto se o destino tem ou não papel preponderante sobre nossas vidas, ou é apenas uma questão cultural...

Judaico-cristã.

Mas, afinal, isto era puro acaso...

Ou não?

Que julguem vocês, meus leitores atentos e perspicazes. Eu faço apenas o papel de relator dos acontecimentos.

Na madrugada da sexta-feira seguiu o batalhão com equipamento completo de combate na selva, dispostos a prender os criminosos e acabar com seu acampamento, caso a denúncia fosse confirmada.

Marcharam pela mata fechada no Município de Uiramutã, local do quartel do 7º PEF, e ponto inicial da missão, porém o planejamento da operação jamais se iludiu quanto a uma coisa: sabia-se que os soldados iriam penetrar muito mais do que se imaginava na reserva, sempre tendo como pano de fundo uma escuridão completa, cinzenta, sujeita às chuvas e/ou trovoadas, isto sem contar os inúmeros perigos da fauna hostil, sacis pererês, curupiras, etc. e tal...

Ah! Esta é uma probabilidade contida em muitas das equações dos matemáticos de plantão, principalmente porquanto numa floresta úmida, água é o que não falta...

Absolutamente!

Enfim, seguiram os atalhos que os levava ao tal do acampamento sem um minuto de trégua, até que o capitão Siboldi deteve-se num determinado ponto do percurso junto com a tropa.

– Bebam um pouco d’água, pessoal – disse Siboldi, impessoal, como manda um comandante bem treinado, encostando-se a uma das árvores reinantes ali, absoluta, impávida, abrindo seu cantil e levando-o a boca, pingando, pingando, e sem ressentimentos, como sói num escorpião venenoso...

Ainda permanecia o estado de expectativa dentre todos os membros do comando, como da beligerância entre Siboldi e Felipe, aquilo não se apagaria assim, de inopino, graças ao espírito de aventura que aquela missão implicava, mas nada transparecia do que estava para acontecer...

E as coisas são assim mesmo...

Imprevisíveis.

Embora três dos integrantes daquele comando soubessem muito bem o que viria a seguir...

Celha, a única mulher residente em todo o 7º PEF, e uma das mais competentes em termos de combate na selva, aprovada e comprovada nos treinamentos exaustivos levados a efeito no próprio PEF, curiosa como toda mulher, apesar do silêncio imposto aos integrantes da missão até aqui, não resistiu por mais tempo, e atacou:

– Bem, Capitão, eu poderia perguntar-lhe o que podemos esperar dos invasores?

Ela já havia bebido o seu quinhão.

– Não, tenente – respondeu Siboldi peremptório, antipático, sáfaro. – A senhora não tem o direito de perguntar nada...

No entanto Mascarenhas não respeitou o silêncio, e, deitado na erva alta do tapete florestal, olhos fitos em algum provável espião oculto na mata, debochou:

– O que podemos esperar de grileiros metidos na selva ilegalmente, Nascimento?

– Chumbo grosso, na certa – imiscuiu-se Felipe, igualmente atento, mas que não tivera nenhuma intenção de corroborar o espírito inamistoso em relação a ela, ou a ele próprio. Neste particular a atenção de Felipe Corrientes não despertara.

– Com certeza! – acrescentou Gusmão, agachado numa das inúmeras árvores que circundavam o ponto onde eles se encontravam. Fuzil em riste. Ele também espreitava.

– Silêncio todo mundo! – volveu Siboldi num tom que não deixava dúvidas em relação à gravidade do momento.

Acabara de se reequipar, e ajeitara seu uniforme, um tanto amarfanhado, com suavidade algo diplomática.

– Vamos... – disse mais uma vez o capitão. – Estamos a poucos metros do acampamento, segundo o mapa que o comandante nos deu. Preparem-se para trocar tiros com aqueles marginais. Eles estão dispostos a tudo para manter sua posição. Vamos nos dividir em dois grupos... – disse, e apontou para uma gigantesca quaresmeira que servia de marco para os soldados. – Ali na frente há dois caminhos distintos... O da direita é o mais longo, mas nos levará às costas dos grileiros, como garantia de que eles não nos escaparão. Corrientes e Nascimento, vocês liderarão este grupo. O outro nos leva direto ao acampamento deles. Eu, Mascarenhas e Gusmão vamos por ele. Alguma dúvida?

Felipe levantou a mão.

– Fala, Corrientes! – disse Siboldi ríspido, porém baixo.

– E se houver correria, fuga precipitada?

– Atirem para matar! Se for possível, só pra imobilizar. Ninguém pode escapar pelos nossos dedos... Entenderam? Nós temos de capturar um infeliz desses a qualquer preço. Temos de interrogá-los...

– Mas isto pode ser uma carnificina, Senhor! Será que as ordens que nos...

– As ordens que nos foram destinadas, Corrientes, dizem que não devemos deixar ninguém escapar! E ordens são para ser cumpridas, não questionadas. Entendeu?

Felipe, claro, tinha compreendido muito bem, entretanto ele perguntava com seus botões até que ponto Siboldi não estaria agindo com autonomia exagerada.

Não cabia a ele responder pelas conseqüências daquela ação talvez calamitosa.

Celha, ao contrário do companheiro, manteve-se calada o tempo todo, após advertência do comandante, observando o interior de cada um dos companheiros. E por dentro ela também fervia de uma excitação algo preocupada. Começava a enxergar naquela missão algo de podre, embora não pudesse prever com exatidão o que estava sendo arquitetado pelo comandante. Não tinha dúvidas em relação a isto, e agora precisaria redobrar sua atenção a cada passo.

Pegou no braço de Felipe, o que indicava que estava pronta para segui-lo até o inferno se fosse preciso, porém aquele toque disse muito mais do que Felipe precisava entender.

Siboldi, Mascarenhas e Gusmão não perderam mais tempo e tomaram o caminho na mata à esquerda. Os demais soldados do seu grupo limitaram-se a segui-los.

Celha e Felipe seguiram pela direita, seguidos pelos outros soldados...

Descerebrados...

Coitados...

Todos aqueles que seguem ordens sem prever as conseqüências...

E sem raciocinar no que estão fazendo.

Isto perpassou a mente de Felipe num átimo...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE III, CAPÍTULO 2


Ela não sabia muito bem o que escrever naquele dia, embora tentasse depois de umas duas xícaras de café solúvel, porque não havia pó naquele momento na empresa. Uma questão de descuido regular, próprio das mentes feéricas que pensam o mundo.

Na realidade havia muito pouca gente na redação da Sweetwaters naquela hora. Todos estavam empenhados na busca de notícias atualizadíssimas acerca da nossa conturbada reserva Raposa Serra do Sol.

Eu também me achava meio oco por dentro. Sabe aquela coisa de desertos e terras ásperas como metáforas para pouca ou nenhuma inspiração literária...

Nós nos olhávamos, Wirna e eu, como dois desconhecidos obrigados a se sentar lado a lado num consultório médico, uma coisa que me oprimia um pouco às vezes, mas que era quase inevitável...

O fato é que nem mesmo um computador quântico, com ligação direta à máquina de fabricar idéias, estrelas, abstrações, poderia tirar o zero do placar...

Olhávamos nossos laptops como duas crianças que contemplam um brinquedo novo, cujo significado permanece obscuro por longo tempo, antes que ganhe vida num folguedo qualquer...

Eu esticara os pés bem calçados por cima da mesa da nossa sala a fim de visualizar melhor o que não fazíamos, embora soubesse muito bem que Wirna, a chefona da tribo, apesar de nossa intimidade extrapolar aquelas paredes, não gostasse nada nada desse afrouxamento dos costumes austeros num ambiente de trabalho, como levar o dedo ao nariz por exemplo, próprio de uma boa germânica da boa cepa, com educação prussiana e tudo...

Mas eu vivia subvertendo a ordem preestabelecida...

E continuamos lá, nosso diálogo mudo com laptops inexpressivos...

Olhava pra todos os lados, menos pra onde devia...

O trabalho.

Ach Gott! Eu não podia falar nada dele, pois estava no mesmo barco, como eles costumam se expressar.

Que preguiça era essa que tomava todo o meu corpo de assalto? Eu a chamaria “doença dos trópicos”. Creio já ter ouvido isto em algum lugar...

Estávamos os dois como que paralisados, como se uma descarga elétrica monumental, como numa daquelas tempestades tropicais típicas, tivesse caído sobre nós...

O pior é que ele cismou, naquele momento de ócio, em colocar os pés sobre a mesa, coisa que ele sabia que eu detestava!

Mas, nossa, eu não podia fazer com que o Celso esquecesse suas raízes completamente. Ele já procurava se anular tanto por minha causa!

Fechei o laptop e encarei Celso...

Disse:

– Temos de mandar alguém a Boa Vista amanhã.

Ele fez o mesmo e retrucou:

– Eu sei.

– O conflito generalizado está prestes a explodir.

Celso olhou a sua volta como que procurando por ouvidos indiscretos, mas a nossa sala era isolada do restante da sede e praticamente a prova de som.

– Porque não vamos nós mesmos?

– Há coisas que tenho de resolver por aqui...

– Tipo...

– Segurança.

– Como assim segurança?! Nós não temos nenhuma no Rio de Janeiro. A menos que...

– Eu quero dizer a segurança interna do nosso projeto.

– Ah, bem! Porque, Segurança, com letra maiúscula, aquela que todo cidadão paga pra ter, essa pode esquecer! Além do mais, a suposta insegurança que todos nós temos de conviver diariamente nas grandes cidades serve justamente de cortina de fumaça...

– É isto mesmo. A fumaça não pode baixar. Temos que ajustar algumas peças antes do golpe final.

– Então um de nós apenas irá?

– Você Celso. Eu sou mais importante aqui no Rio agora. Podemos cobrir os desdobramentos de toda a confusão que ocorre lá na Amazônia entre a intelectualidade dos grandes centros urbanos, ao mesmo tempo alimentando a mídia com novas informações a cada dia.

– Mas isso qualquer um pode fazer, Wirna.

– Não senhor, Celso. Eu preciso de alguém da minha inteira confiança no local. É uma questão de segurança interna, como já disse antes. Segurança no acesso à informação limpa, entende?

– Completamente.

– Estão acontecendo coisas na Amazônia que até Deus duvida! Os interesses capitalistas estão a um passo de transformar a floresta em pó! A despeito de toda a propaganda negativa que nós e a imprensa fornecemos há décadas!

– E a despeito de todos os pseudoprogramas de governo também.

– Sim. Também.

– Wirna, cá entre nós. Sinceramente. Você acredita que a humanidade organizada poderá deter o processo de degradação da Amazônia?

Demorei alguns instantes para dar uma resposta fatídica. Mas nem precisava! O Celso, claro, já sabia o que eu ia dizer. Nós nos conhecíamos há mais de dez anos, trabalhando juntos aqui na Sweetwaters diuturnamente, viajando pra todo lado em dupla, e nos relacionando intimamente há pelo menos a metade disto. Não havia segredos entre nós...

Nenhum.

Compartilhávamos tudo...

Absolutamente tudo...

De bom e de ruim.

Acrescentei, desanimada:

– Infelizmente os interesses do capitalismo extrapolam o fator humano. A vida toda foi assim. Esse negócio de dizerem que nós ultrapassamos a fase do capitalismo selvagem é pura balela. A sede do capitalismo, das grandes corporações, trustes, conglomerados financeiros, é insaciável. O capitalismo é e sempre será selvagem.

– Então porque estamos lutando?

– Porque o ser humano sempre se apoiará numa mísera palha pra não se afogar. Veja isto como instinto de sobrevivência se quiser; os mais materialistas, pelo menos, pensam assim; os espiritualistas encaram isto como uma questão de fé, otimismo, mas a essência do capitalismo nunca mudou: a exploração do lucro onde houver. É inevitável.

– Estamos fadados à autodestruição.

– Talvez. Quem pode prever? Algumas décadas atrás a maioria dos intelectuais de todo o mundo achavam que nós nos destruiríamos numa guerra nuclear, e isto não aconteceu, embora ainda não estejamos livres deste pesadelo. Sempre encontraremos um meio de sobreviver...

– Mas se não houver água, por exemplo...

Agora quem olhou ao redor, em pânico, fui eu. Este era um tema tabu entre toda a comunidade ecologicamente correta. Havia muitas controvérsias no que tange ao certo e errado na forma de lidar com a questão da água. Poucos convergiam neste particular. A única coisa que se tinha certeza era o óbvio...

– Que ninguém nos ouça – acrescentei – mas se a água faltar, aí não haverá nem mesmo uma palha para nos segurar.

– É o fim desta civilização de tantos altos e baixos.

– Mais baixos do que altos.

– E o que acontecerá depois?

– Só Deus sabe; literalmente.

– Será que o Dono do Mundo também sabe disso?

– Quem é o Dono do Mundo? Você sabe?

– Nós trabalhamos pra ele...

Soltei uma sonora gargalhada. O Celso, como todo brasileiro em geral, esbanjava bom humor. E era muito inteligente também. Aliás, como todo brasileiro, o Celso era um sobrevivente. Quer dizer, ele já podia ser considerado uma pessoa nos padrões europeus, tanto no seu pensamento, quanto nos hábitos civilizados, mas ainda carregava aquele DNA tipicamente tupiniquim.

Continuei o meu discurso:

– Será que o Dono do Mundo é humano?

– Sabe, Wirna, isso é o que eu vivo me perguntando...

– E qual foi a conclusão a que você chegou?

– É impossível a uma mente humana responder a esta pergunta.

– Então, Senhor Sabichão, trate de arrumar as suas coisas, pois o senhor embarca para a Região Norte ainda esta semana...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE III - CAPÍTULO 1


Quando abriu a porta da geladeira... Madrugada adentro, tudo escuro... Que susto danado! Um sanduíche americano, pelo menos parte do que sobrara dele, foi ao chão cuspindo caquinhos de louça colorida pra todo lado...

       Alface, tomate, pasta de atum e queijo amarelo, fatiados e despedaçados, jaziam no chão enladrilhado e frio, como no Alaska...

       Ele ficou ligeiramente preocupado com o sono da esposa nua ainda na cama, adormecida, após uma longa noite de amor como nunca se viu...

       Nooooossa! Que exagero das colunas sociais que levantam páginas e mais páginas de assuntos decididamente inúteis!

       Não foi assim... tão maravilhosamente maravilhoso como pensou um Tigre...

Isso até passava pela cabeça de um homem jovem adulto no auge do seu potencial sexual, mas...

       Definitivamente...

       Realmente?

       Foi muito bom. E ponto final.

       Mas houve dias melhores...

       Outros virão...

       Ele andou até uma poltrona na sala. Tudo escuro. Um frio de rachar na noite carioca, e a mulher lá... no quarto... nua.

       Deu uma espiadela pela porta do quarto entreaberta...

       Ela já havia se coberto.

       Voltou até a sala e espreguiçou-se sobre a poltrona confortável. Não era possível entreverem-se detalhes daquela decoração sui generis, pois estávamos na mais absoluta penumbra noctívaga, mas, se pudéssemos, diríamos que tudo que havia de mais confortável na indústria da decoração de ambientes deveria existir ali...

       Mas ele não se preocupava com nada disso...

       Sua mente vagava a muitos quilômetros de distância do Rio de Janeiro, apesar de estar precisando de uma folguinha como esta, não negava, principalmente depois dos acontecimentos que culminaram na declaração de guerra...

       Não comentara uma linha sequer com Flávia, sua mulher. Ela não precisava saber dos problemas do seu trabalho, até porque ignorava qual o serviço que o marido exercia no exército, e também não se interessava muito por ele por livre e espontânea vontade. Sua vida social era muito mais importante do que a carreira dele, metido no meio da selva amazônica, conforme ela desabafara uma vez com uma amiga...

       Amiga mesmo?

Todos nós temos nossas dúvidas.

Flávia era uma bela representante da classe média alta carioca. Um corpo escultural, jovem, moreno de praia todo dia e ávido por aventuras. Desfilava esta beleza por academias e onde mais fosse requisitada. A vida era uma delícia! Boa para ser vivida e não dramatizada. Odiava más notícias. E odiava tudo o que lhe subtraía deste mundinho da aparência e das pseudovirtudes da sociedade carioca, pois, em sua tosca opinião, a civilização caminhava cada vez mais para o ápice, embora não soubesse especificar do quê...

As preocupações com as desigualdades sociais, as distorções e iniqüidades por trás dos poderes públicos, tudo isto era conversa inútil, que não a levaria a nada!

Já fora assaltada duas vezes, uma delas na porta de casa, quando lhe deixaram apenas com a roupa do corpo, expressão máxima da impotência carioca. Ainda bem! Mas pensa que Flávia se incomodava com isso? Não ‘tava nem aí!

 Não, ela queria muito mais, muito mais do que poderia cogitar sua vã filosofia, as luzes e as passarelas adequavam-se ao seu perfil como a mão para a luva...

As festas desta cidade bandida que um dia ousou maravilhosa, hoje relegada ao descaso público; uma elite insensível e burra que não enxerga um palmo adiante do nariz, e políticos e vassalos inescrupulosos, decadentes, agindo como vampiros sobre o dinheiro público, com a aquiescência de um povo sofrido e bitolado pela prestidigitação da mídia...

Esta a realidade invisível...

No entanto Flávia e suas queridinhas ainda queriam mais!...

       Felipe também...

       Só que numa oitava diferente.

       A gritante realidade que ele respirava tinha outro sabor...

Mais amargo, é verdade, porém, embora Felipe desconfiasse que todo o panorama visto da ponte cheirasse a cadáveres em grande profusão, também se sentia incapaz de perceber todos os sintomas para chegar ao diagnóstico final...  

Sentado na sua poltrona na escuridão da madrugada suada, apesar do frio noturno, chuvoso, tenebroso, Felipe conseguiu esboçar um sorriso...

Subitamente pensou em Celha Regina...

Mas logo em seguida imaginou-a no meio dos chacais comandados por Siboldi, a selva nervosa, coerente e hostil, a persegui-la com seus galhos ameaçadores, exatamente como num conto infantil de terror, e aquele sorriso desapareceu...

Uma vozinha esmaecendo por baixo dos lençóis despertou-o de outro pesadelo...

O vento noturno trouxera estas palavras:

“Meu amor”...

E outras mais se acrescentaram à sinfonia do Monte Calvo...

– Que que ce tá fazendo?

Ele guiou-se através dos becos escuros até seu himeneu penumbroso...

Um corpo bem esculpido agitou-se por baixo do edredom soletrando com dificuldade palavras ainda mais obscuras...

Ainda assim ele pôde compreender...

– Porque você não vem dormir?

– Porque eu perdi o sono...

Flávia levantou-se, como que embriagada, embora não bebesse uma gota de álcool. Sua beleza era estonteante, mesmo descabelada, aqueles cabelos sedosos compridos brilhantes emaranhados...

– Você está tão estranho, Felipe...

– Estou?

– Sério! Desde que você chegou...

– Engraçado...

– Aconteceu alguma coisa lá na Amazônia?

– Não.

Porém esta resposta dizia muito mais do que uma infinidade de livros.

Flávia levantou-se definitivamente para ir ao banheiro...

Toda a poesia ficou suspensa por alguns segundos...

Uma Noite no Monte Calvo...

De novo.

Flávia empurrou-o para cama...

Por um breve momento, Felipe pensou que eles começariam tudo outra vez, mas ela citou um acontecimento banal, uma fofoquinha de academia, e seu espírito rebelou-se...

Felipe deixou-a falando sozinha e dirigiu-se à sala, na cova do Monte Calvo...

– O que aconteceu, Felipe? – perguntou ela penetrando na cova. – Você está muito estranho, Bem...

– É impressão sua, Amor.

– Sabe aquela vaca da Marília?

– Não – volveu ele distante, imune aos ruídos. – Eu não conheço nenhuma das suas amigas – completou com ironia, o que jamais atingiria a insensibilidade social de Flávia.

– Largou o marido pra ficar com um amante vinte anos mais velho do que ela...

– Alguma coisa este “amante vinte anos mais velho do que ela” deve ter que o marido não tinha...

– Duas coisas na verdade. Uma BMW e um Masseratti na garagem.

– E o marido da Marília?

– Tinha um Picasso. Mas ficou só com ele. A Marília foi morar com o Masseratti.

– Isso foi bom pra ela?

– Meu Deus, Felipe, se eu não te conhecesse, diria que você está igual ao marido da Marília!

– Porquê? Eu não tenho um Picasso...

– Não! Mas eu adoro o seu Stylo! – volveu ela com uns olhões arregalados, e acrescentou satisfeita, sorrindo: – É tão bonitinho ele, sabia?

Felipe olhou-a com ternura. Ela não passava de uma criança, como toda a humanidade, pensou num momento de lucidez algo profética.

E o que não era este mundo senão uma imensa creche escola?

Felipe estava inspirado.

Ele caminhou em direção ao lavabo. Flávia seguiu-o, agarrando-o pelas costas, soprando pequenas palavras mutiladas de carinho. Ela gostava do marido, sem dúvida, não o trocaria por um Masseratti, nem por uma BMW, até porque Felipe lhe dava uma vida de rainha, só que adorava a vida carioca muito mais do que imaginava.

Futilidades a parte, os dois se atracaram no corredor, ou melhor, ela é quem o derrubou no tapete da porta do lavabo...

A madrugada alongou-se prazerosamente.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE II, CAPÍTULO 2.


Tanaka Osumi não se interessava por passarinhos...

Até gostava, nas horas vagas, lá na sua casa de campo no interior do Japão, com sua bela e tradicional família japonesa, que jamais havia visitado o Brasil, embora até ouvisse falar naquele país exótico, porque muitos descendentes viviam por lá...

No entanto, no Japão tradicional, a coisa era bem diferente...

O que mais se falava do Brasil por aquelas plagas, mas não na região onde viviam os Osumis, era Zico, Carnaval, Tropicalismo e Gisele Bündchen...

Alguns japoneses de olhinhos puxados ainda comentavam, com certo pudor, é verdade, porque eles eram muito educados, que, aqui no Brasil, o que dava mesmo era corrupção e impunidade...  

E o que as íris de Tanaka mais gostavam de ver eram os cifrões das moedas correntes pelo mundo, traduzidas em polpudos yens japoneses...

Sim, os interesses de Tanaka eram bem como Mister Taylor havia citado...

A exportação do arroz que era produzido às margens da reserva Raposa Serra do Sol, uma das maiores fontes de conflito da região por causa dos índios, dava a Tanaka um lucro exorbitante! Mas ele não se metia em interesses políticos de países amigos...

O seu trabalho gerava divisas pelo mundo afora, mantinha empregos, fazia a roda girar, e era isto o que importava, embora ele gostasse deste Brasil encantador que só dava lucro e ninguém queria largar, apesar de toda crise internacional, uma crise que transcendia a economia mundial, o que nenhum dos confrades de Tanaka jamais iria admitir...

Ou seja, Tanaka Osumi era um homem de negócios por excelência, convicto daquilo que fazia, e sempre pronto a fazer o próximo lance, e que isso lhe custasse o menos possível, pois, afinal, sempre existe a possibilidade de se barganhar, e nada melhor do que o Brasil, terra fértil para negócios baratos e lucrativos!

Talvez o Brasil fosse a terra mais promissora do futuro, isto é, desde que nenhum engraçadinho ousasse mudar as regras do jogo, isso Tanaka jamais admitiria, e todo o conglomerado financeiro mundial assinava embaixo.

 Tanaka era um dos maiores amigos do casal Taylor no Brasil, e em Little Town, na Guiana, onde o casal tinha sua residência fixa, o japonês se “escondia” às vezes.

Volta e meia estavam os três reunidos em festas em Manaus, Belém, Boa Vista, onde quer que elas estivessem acontecendo...

Apesar dos Taylors não morarem no Brasil oficialmente, eles falavam o português muito bem, e tinham livre acesso para ir e vir à vontade, pois o seu trabalho era reconhecido por toda a comunidade amazônica. Ambos eram autoridades em suas áreas técnicas no mundo todo, e tinham também muitas amizades nesta região, que englobava mais de um país da América do Sul.

Mas o que os Taylors tinham de tão aprazível para os olhos ávidos do japonês?

Apesar de viverem enfurnados lá nos cafundós do Judas da selva amazônica, os Taylors eram muito bem relacionados dentro e fora do Brasil, e com isto Tanaka dispunha de enormes possibilidades de penetração política em terras tupiniquins e alhures.

Mais contatos significavam também novas possibilidades de expansão em negócios, e o que há de mal nisto?...

Absolutamente nada.

Considerando ainda que Tanaka fosse um defensor férreo das linhas mestras do pensamento samurai, ele havia assimilado, todavia, um dos pilares fundamentais do modus operandi da sociedade brasileira, e por isso sabia que quem tem padrinhos não morre pagão.

Tanaka ficava, às vezes, uns dois meses sem pôr os pés no Japão, envolvido até o pescoço com os negócios, e nisto também ele assimilara uma das maiores manias nacionais, principalmente para os homens ricos de norte a sul, que era a de possuir uma amante...

Ela atendia pelo nome de Marina Seixas, e pertencia a uma das mais tradicionais famílias da região, que conhecia o japonês e sua história, e ainda assim não criava caso, ao contrário, uma vez que a bela morena, com ascendência inegavelmente indígena, de uma beleza estonteante, vivendo a tira colo com ele para cima e para baixo, só iria granjear, segundo a família Seixas, bons dividendos para todos, o que não desagradava nem mesmo a Tanaka, uma vez que sua família, lá no recanto mais inóspito de uma ilha no Pacífico, jamais ouviria falar das aventuras deste samurai às avessas, e, em relação à família de Marina, e mesmo dela própria, ele estava pouco se lixando!

Porém, estas ligações perigosas, mais dia menos dia, poderiam desembocar num grande escândalo, mas ninguém parecia se importar com isso, exceto os Taylors...

Aparentemente, claro.

– E essa menina, Tanaka... – perguntou-lhe Susan, num dia em que ele os visitava em sua bela casa em Little Town. – Não se incomoda mesmo de você ser casado?

– Acho que não – respondeu o japa taxativo, com algum orgulho por enxergar sua sapiência oriental, e certa superioridade imperialista. – Digamos que ela – e os pais também, claro – esperam aumentar seu rol de influência política na região...

– Mais ainda?! – perguntou, por sua vez, Charles Taylor, com a fala meio torta devido ao tradicional cachimbo inglês enfiado no canto da boca, embora com certa ênfase, sentado numa elegante Berger italiana com couro americano marrom escuro legítimo, no calor de sua suntuosa biblioteca e suas encadernações francesas do século XIX, e uma xícara de café, este genuinamente brasileiro, bem ao lado da mesinha de centro, onde outras duas xícaras repousavam, uma pela metade, exatamente a de Tanaka, porque ele preferia o saquê, a outra da própria Miss Taylor.

Tanaka limitou-se a rir da entonação um tanto sarcástica de Charles Taylor, a quem ele supunha conhecer muito bem, não entrando em detalhes acerca da verossimilhança ou não da assertiva.

– Mas e os pais dessa garota? – insistia Susan, num interesse que transcendia a esfera da fofoca – Eles devem saber que você nunca poderá assumir nenhum compromisso com a filha deles, o que torna este interesse meio inútil...

Tanaka voltou a sorrir. Era um homem no auge do seu autodomínio capitalista, da pujança senhorial, de alguém que pode até mudar o rumo das revoluções solares.

– Inútil? – replicou ele. – Esse povo tem uma esperança insana por um Deus que julga brasileiro acima de todas as outras raças! Vocês já viram maior absurdo?

Charles Taylor assentiu com o cachimbo na boca.

– Eu sim... Foi há quase dois séculos, quando o povo inglês se julgava privilegiado, até mesmo mais que aos judeus...

– Ou que os brasileiros – e Tanaka voltava a sorrir, zombeteiramente.

– Mas será que essa família tem mesmo alguma esperança de vê-la casada com você? – volveu Susan, no entanto estava claro que ela queria dizer muito mais. – Eu digo isso, porque, sendo esta família, como você mesmo acabou de dizer, uma das mais tradicionais de Boa Vista, não deve ter muita simpatia ao assistir a filha única desfilar com um homem casado...

– Susan – e aqui Tanaka fez uma pausa grave, delicada, porém ameaçadora para as pretensões dos Seixas. – Eu não tenho o menor interesse em me desfazer do meu casamento. Nunca passou pela minha cabeça abandonar a minha família para residir aqui no Brasil... E ela sabe disso...

– Mas será que a família dela sabe? – lembrou Susan bem a propósito.

 – Bom... Isto não é problema meu...

– Em muitas ocasiões, meu samurai, nós vemos a realidade de um jeito próprio, e que não necessariamente é encarada da mesma forma pelos outros – a fumaça expelida pelo cachimbo de Charles parecia rir-se daquela filosofia pela metade.

Não houve réplica por parte do japonês.

– Olha qu’eu já vi muito paxá descendo do seu trono engalanado, meu caro – completou Charles fumacento.

– Você está brincando comigo, Charles! – volveu um Tanaka indignado. – Esta situação não foi criada por mim... E eu deixei isto bem claro desde o começo!...

– Eu o entendo perfeitamente, meu caro Tanaka – continuou Charles, fumacento. – Além disso, você seria um tolo se largasse a sua... Como é mesmo o nome de sua esposa, Tanaka?

– Omiko – respondeu ele curto e grosso.

– É um belo nome, sem dúvida... Como você poderia largar a sua Omiko por esta... Não gosto desta alcunha, mas vá lá, é como todo mundo costuma denominar no sentido pejorativo do termo...

– Cucaracha – disse Susan sem rodeios.

– Obrigado, minha amada – retrucou Charles muito corado. – Na realidade é o tipo de coisa que nós, os líderes do mundo, costumamos pesar na balança...

– Não é isso que eu levo em consideração – respondeu Tanaka sem pestanejar. – É claro que nossas diferenças culturais têm o seu peso, mas... Até quando eu estarei no Brasil?

– Enquanto os negócios prosperarem – disse Susan com uma pontada de malícia.

– Estou como vocês... – devolveu o japonês. – De passagem.       

– Neste ponto permita-me discordar de você, meu jovem! – replicou Charles com jovialidade, mas sem esconder certo incômodo frívolo. – Eu não sei se eu e minha querida Susan partiremos desta região algum dia... Nós adoramos isto daqui!

Susan “Chapman” Taylor olhou para o marido com certa dúvida naqueles olhinhos azuis piscina. De certa forma ela até concordava com ele, mas deixou transparecer ao japonês que neste assunto não havia unanimidade entre o império britânico.

– Por falar nisto, Tanaka – volveu Charles com suas baforadas perfumosas. – Como vão os negócios nesta temporada de caça?

– Na mesma – retrucou o japonês com indiferença infinita. Nem parecia que ele amava o dinheiro.

– Qual o grande empreendimento do momento? – insistiu o inglês.

– O mesmo de sempre – disse o japonês com uma malícia oculta, mas que Susan percebeu no ato. – Mas o melhor negócio de todos, aquele que pode transformar a Amazônia num pote de ouro, seria, talvez, criar uma área de reserva internacional na Amazônia...  

– Como assim, Tanaka?! – perguntou ela, curiosa por natureza, disfarçando, porém, seu real interesse pelo assunto. – Como poderíamos transformar uma região que pertence a um punhado de países, numa reserva internacional?

– Então!... O primeiro passo já foi dado pela história... Não sei como poderíamos viabilizar isto do ponto de vista burocrático, mas sei que deveríamos.

– Todos nós sabemos que a Amazônia vale muito mais do que a floresta em si, mas se nós vamos transformá-la numa área de reserva internacional, ela não poderá ser explorada pelas indústrias...

– Neste caso – imiscuiu-se Charles, cortando a esposa, sorrindo e soltando espirais de fumaça para o ar privilegiado do lugar, porém dirigindo-se a Tanaka – Sou obrigado a concordar com minha esposa. Todos nós sabemos que a legislação no Brasil é frouxa em vários sentidos, o que faz com que as madeireiras, por exemplo, possam explorar este filão praticamente impunes, porém, desde o momento que nós criarmos uma área de reserva internacional por aqui, a comercialização da madeira cairá praticamente à zero, haja vista que quase a maioria dos ambientalistas diz ser este um dos principais problemas da floresta desde Chico Mendes.

Susan olhou para Charles, depois para Tanaka, a fim de presenciar se o japonês acusava o golpe, porém qual não foi sua surpresa ao vê-lo esboçar um sorriso tosco e enigmático, como o do jogador que acaba de se certificar que na próxima jogada sairá vencedor.

– Vocês não estão me entendendo...

– Explique-nos Tanaka – incentivou Charles, maliciosamente.

– Estou falando de uma falsa reserva, obviamente, onde nós possamos arrancar todas as riquezas que a Amazônia possa nos proporcionar...

– Nós?! – Susan fingiu não entender.

– Nós, as nações ricas e empreendedoras, claro! Há muito para fazermos na Amazônia, gente...

– Não creio, meu caro Tanaka. Não creio, sinceramente, que este seja um empreendimento viável, e nem que a opinião pública mundial veja isto com bons olhos...

– É óbvio que não, Charles! Mas manobrando as pessoas certas, eu acho que nós conseguimos dar um jeitinho, afinal o Brasil é a terra do jeitinho...

Tanaka não percebera que a conversa alcançara um terreno incômodo para os dois cientistas, e, facilitado pela boa comida e bebida, continuou falando até tarde, até que chegou o momento de ir-se embora.

Depois de encerrada a visita, tarde da noite, Susan Taylor ainda teve tempo de observar para seu marido:

– É bastante ambicioso nosso amigo japonês, né?

– Muito – concordou o inglês que nunca perdia o bom humor. – Esses homens de negócios não conseguem enxergar outra coisa que não seja uma boa fonte de renda onde quer que ela esteja. São capazes de qualquer coisa para atingir este objetivo...

– Será que nós devemos considerá-lo mesmo um amigo, Charles, meu bem?

– Querida, vou lhe dizer uma coisa que talvez lhe alegre o coração... Eu não consigo desgostar dele.

Susan abriu um largo sorriso antes de deitar para dormir.

– Eu também gosto muito dele... – disse ela, deitando-se. Charles anuiu deitado, todo coberto, com seu gorrinho inglês e tudo. Ela continuou sorrindo e deu-lhe um beijo caloroso no rosto, dizendo: – Mas espero, sinceramente, que a idéia de transformar a Amazônia numa reserva internacional fracasse.

A luz apagou-se. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE II, CAPÍTULO 1


Alguns palavrões em inglês, absolutamente inéditos para uma audiência pouco acostumada à língua, encheram o ar da floresta.

       Nenhum daqueles pássaros, entre miríades de outros seres não menos interessantes, ligou para as advertências monossilábicas que agora se seguiam às imprecações indignadas daquele homem praticamente nu, embora o tom da pele o denunciasse como um estrangeiro.

O motivo de tanta irritação era simples: Mister Taylor estava enredado na própria rede...

Ele tentava pegar alguns incautos passarinhos para seu mais recente estudo sobre as migrações das espécies ornitológicas...

Uma série de gargalhadas femininas de boa cepa, divertidas mesmo, logo se seguiram aos reclames internacionais.

– Ora veja você, Charles! O caçador tornou-se a caça!

– Você quer deixar de bancar a engraçadinha e me ajudar a sair daqui?

O tom de voz de Charles Taylor ainda era de irritação.

A propósito. A mulher que havia lhe falado, em português, porque eles o entendiam e falavam com muito prazer, era Misses Susan Taylor, uma grande biologista, que ajudava o ornitólogo e marido no trabalho de campo há já três décadas.

Misses e Mister Taylor já não eram garotinhos, embora gostassem daquele ritual célebre de esconderem a idade, orçada de qualquer maneira lá pela casa dos sessenta, é o que se dizia a boca pequena, na pequena comunidade onde viviam, em Little Town, República da Guiana.

– Acho melhor cortar a rede – volveu Susan sintomaticamente. – Oh, meu amor! Você se enredou de tal forma que não vejo outro jeito de tirá-lo daí...

– Tira essa merda logo, Susan! – esta frase foi proferida em português mesmo, com toda a ênfase que a situação exigia. – Não importa se estragar!

– Tá bom... – dizia ela sem perder o bom humor. – Vou cortá-la...

Logo depois Mister Taylor já estava livre da rede.

– Mas como você foi se enrolar na rede, Charles?

– Eu estava observando aquele casal de uirapurus de ontem, você lembra deles?... Pois eu tinha me esquecido da posição exata onde tinha armado essa merda!... Eu fiquei puto com a minha distração, aí saí arrastando a porra da rede que nem um alucinado...

– Calma, Charles! Nós temos dúzias destas redes em casa!

– Eu sei que temos, Sue! Só me preocupa a minha desatenção dos últimos tempos... Acho que estou ficando velho, sabe...

– É natural, meu querido. É óbvio que nós já não somos tão jovens de quando aqui chegamos... Você se lembra? Foi na década de oitenta...

– Se me lembro? Claro que eu me lembro! Como poderia esquecer. Acho que eu tive a mesma sensação dos portugueses há cinco séculos, a de ter encontrado o paraíso...

– Sabe de uma coisa, Charles? Eu ainda penso que estamos nele, apesar de tudo. Apesar do desmatamento, da ganância humana, da ignorância...

– Se nós não tomarmos muito cuidado com isto aqui, em poucas décadas a maior parte deste nosso paraíso terá desaparecido...

– Você acredita mesmo nisso?

– Olha o que nós fizemos com as florestas da maioria do planeta... O que os próprios brasileiros fizeram com a Mata Atlântica... Às vezes eu tenho muito medo, Sue.

– Você acha que pessoas como o Tanaka, por exemplo, deixariam?

– O Tanaka?! Aquele japonês só quer enriquecer, meu anjo! Ele não tem qualquer comprometimento com a sobrevivência da floresta, o que ele quer é engordar sua já bojuda conta bancária no Japão.

– Você está sendo injusto com o Tanaka, Charles! Eu gosto muito dele. Ele é muito nosso amigo...

– Nosso amigo, é?

– O trabalho dele depende diretamente da floresta. Se não houver Amazônia, ele perde a “bojuda conta bancária no Japão”.

– Ele não depende da floresta, Susan! Que espécie de blasfêmia é esta que você está dizendo? Além do mais, se um comerciante perde sua fonte de renda ele migra pra próxima...

– Não o Tanaka, Charles! O Tanaka está tão envolvido com isto daqui quanto nós...

– O negócio do Tanaka é exportar arroz, minha querida. Mais nada além disso.

– Não seja tão exigente com ele, Charles Taylor. É preciso que se tenha um pouquinho de benevolência...

– E uma pitada de pusilanimidade também, não é?

– Deixe de ser tão pessimista, Charles! O mundo sobreviverá a nós...

– Espero que sim, my darling! E você será canonizada pela Igreja Católica em 2100... “Santa Susan Chapman”...

– Deixe de ironias, seu bobo. Nós ainda temos muito que fazer por hoje...

– Mas logo agora que estávamos tratando da sua canonização?

– Recolha suas coisas, Doutor Taylor! Nossos passarinhos nos esperam em casa...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O SENHOR DAS ÁGUAS - unidade I, capítulo 7


7



E foi numa tarde após tantas outras que se deu o primeiro confronto...

Felipe e Celha, alvos já de certo disse-me-disse, algumas bocas maledicentes garantindo, inclusive, que Celha já era comida do Comandante Paglia, agora parecia oferecer os seus favores ao rebelde Felipe, quando as duas facções depararam-se no meio do pátio do quartel...

Foi um arremate breve, mas que causou estrago.

Disse o Capitão Siboldi com malícia algo ferina, dirigindo-se ao Tenente Corrientes:

– E aí? Continua escutando atrás das portas, filhinho de papai?

Havia um clima de animosidade explícita, prestes a explodir num conflito mais grave a qualquer momento...

Entretanto vários dias de relativa paz se passaram sem que ninguém chegasse ao impasse final, àquilo que ninguém gostaria que acontecesse.

Celha, como possuísse uma compreensão maior do todo que a do companheiro, e preparação psicológica também, conseguiu evitar que Felipe cedesse às provocações, porque era justamente o que almejava Siboldi.

Num belo dia os dois voltaram a se esbarrar no corredor, numa hora em que o serviço já estava encerrado. Contudo, para piorar a situação, Felipe estava de ovo virado, como sói dizer. Houve um principio de tumulto. Felipe ameaçou partir pra cima do Capitão, o que seria uma clara demonstração de indisciplina, punida exemplarmente por qualquer superior. Porém houve atenuantes: Felipe não chegou a se engalfinhar com o seu superior, porque foi detido por sua amiga Celha, pelo Sargento Gusmão e o Tenente Mascarenhas, ambos da corriola de Siboldi, mas ainda assim a refrega não podia passar em branco...

Felipe e Celha foram recebidos no gabinete particular do Coronel Paglia.

– O que, exatamente, está acontecendo entre vocês, Tenente Corrientes?... Eu já soube de várias versões, mas decidi não acreditar em nenhuma delas até ouvir a sua primeiro.

Era um interrogatório, não havia dúvida! E nem poderia ser diferente, haja vista que o que estava em jogo neste momento era a ordem dentro de um quartel militar, e ordem era um artigo fundamental para qualquer instituição desta natureza, porém, havia um clima de camaradagem por parte do Coronel Paglia, próprio do seu temperamento conciliador, vaselinamente bem entrevisto pela Tenente Nascimento.

– Apenas e tão somente um desentendimento bairrista sem maiores proporções, Comandante – arrematou Celha, tergiversando.

 – Está me parecendo isso também – concordou Paglia com aquele eterno sorriso de bom humor. – Mas eu queria a sua opinião a este respeito – completou, apontando a boca cheia de dentes branquinhos para Felipe.

Ele demorou muito a engatar a primeira marcha, mas enfim pegou.

– Siboldi é daqueles paulistas que se acham mais espertos do que qualquer outro brasileiro, só que ele não entende que malandragem não se aprende na escola – arrematou Felipe deliberadamente omisso.

– Vamos fazer uma coisa, Corrientes... – retrucou Paglia com aquele sorrisinho divertido e insistente que chegou a irritar um pouco Felipe por achá-lo um tanto forçado naqueles lábios grossos quebradiços. – Vamos esquecer esta bobagem toda, tá? – de repente, aquele sorriso fácil desapareceu da expressão matreira do Coronel Paglia, e um ar de seriedade substituiu aquel’outro. – Até porque isto pode atrapalhar o rendimento de vocês nas ações que estamos desenvolvendo, o que me obrigaria a intervir de maneira severa contra os dois, o que eu espero não ter de fazer. Não posso mexer no nosso time agora.  

– Além da questão Raposa Serra do Sol, Coronel, existe alguma questão “extra” em andamento? – perguntou Celha com alguma malícia.

Paglia observou-a atentamente antes de responder, uma expressão absolutamente indecifrável.

– Nós trabalhamos num quadrante de fronteiras, Tenente Nascimento – volveu Paglia categórico, porém ameno, disfarçando o que ia ao intimo. – Estamos sempre prontos às missões de emergência. Bem, Corrientes, não ouvi sua resposta, garoto...

– Claro que sim, Coronel – respondeu Felipe meio cabisbaixo, mas não tanto. – Aquilo foi uma bobagem de nossa parte...

– Como toda grande família, sempre há um arranca rabo – Paglia voltou imediatamente ao seu tom habitual. – Deixe o Capitão Siboldi comigo – acrescentou relaxado, cínico, brincalhão.