quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE VII - CAPÍTULO 2


       Cada um de seus passos naquele piso extremamente liso, bem desenhado, recortado em grandes quadrados pretos e brancos, como numa paródia ao Yin e ao Yang que ele conhecia como ninguém, transcorria com uma placidez quase absoluta, embora ele não acreditasse neste absoluto vulgarizado, banal na boca de um sacerdote medíocre, e apesar dos burburinhos poluidores que vinham de todos os lados, entrecruzando-se feéricos, e que não viam os mesmos sinais de prosperidade que havia em seus olhos.

       A cegueira, pensava ele, jazia na retina dos ignorantes, dos timoratos, daqueles que não acreditavam no seu potencial, mesmo que esta energia não existisse em quantidades iguais em cada coração...

       Ele sabia disso.

       O Absoluto em que ele acreditava estava mais próximo de Deus, ainda que o seu sentimento particular não orbitasse na mesma oitava santificada de um eleito.

Mas ele sabia também que estava a distâncias incomensuráveis de um desses pares divinos, ainda que sua cultura, fortemente arraigada em hierarquias constitucionais, relegasse a todos os fiéis a mesma sensação do sagrado, da presença possível de um Deus palpável.

       Portanto, ainda que Tanaka Osumi carregasse todos esses sentimentos consigo, naquele coração pretensamente leve, ele não duvidava em nenhum instante da natureza transitória de todas as coisas. Por isso ele se esforçava cada vez mais! Para que esta transitoriedade de todas as coisas sob o sol não prejudicasse seus projetos imediatos, sempre com a perspectiva atenta de um homem que possuía livre iniciativa, porque ele julgava que aí consistia realmente a diferença entre os homens...

       Bem...

       Cada macaco no seu galho, continuava pensando Tanaka, agora com a mente infectada pela cultura nacional, onde remergulhava mais uma vez, e, coisa engraçada...

       Tanaka não estava preparado para a surpresa que o aguardava pouco depois do saguão de desembarque...

       Mas como todo bom samurai, ele não demonstrou em momento algum a fraqueza do imprevisível...

       Sorriu maleavelmente...

       Conquanto por dentro estivesse furioso!

       Marina, sim...

Esta sorria de verdade...

O prazer do reencontro agradava-lhe a alma. A satisfação de estar revendo seu grande amor era perceptível a uma distância entre o Pacífico e o Atlântico...

Sem nenhum exagero.

Tanaka Osumi representava a última tentativa de consumar um ideal que alimentara as mulheres da sua estirpe há gerações...

Mas não era só!

Antes mesmo que certos fatores majoritários do clã Seixas se impusessem, Marina gostava de Tanaka gratuitamente, e continuaria a amá-lo se ele fosse mero seringueiro...

Quer dizer...

Ela pensava assim...

Acontece que as escolhas do clã Seixas, sacramentadas bem antes de seu nascimento neste planeta, exigiriam dela algo além de sangue plebeu...

Isto era indubitável.  

Entretanto, aquele sorriso moreno, alvacento, regado a mimos patriarcais, que transcendia sua capacidade psíquica intrínseca, aquilo que ela carregava como sendo só seu, mas que representava o coroamento do ápice social eclipsou-se a uma simples frase em tom de reprimenda:

– O que você está fazendo aqui, Marina?

Esta sentença, claro, foi proferida em português, mas num português ruim, temperado com um japonês do interior das ilhas pacíficas daquele arquipélago inumerável.

O sorriso, que contrastava entre o branco de uma dentadura perfeita, e o amarronzado da pele, tornou-se de súbito amarelo.

Tanaka continuou com seus passos marcados, agora destituídos daquela placidez do Absoluto, substituída por uma pisada mais firme, que denotava a irritação de um guerreiro oriental subjugado pelas forças da natureza.

– Eu não gosto de encontrar você em lugares públicos sem ser avisado – disse o japonês num tom de quem mastiga uma ameixa azeda.

– Eu sei disso. Eu tentei entrar em contato com você, mas o seu celular não entrava em comunicação de jeito nenhum...

– Ainda bem... – Tanaka falava seco, e caminhava inexoravelmente, como se pudesse ignorar a presença de Marina respirando no seu cangote.

– Desculpa, meu amor...

– E não me chame de “meu amor”!

Agora o semblante nublado de Marina deu vazão às lágrimas da decepção...

– Pare de chorar, Marina!...

Mas ela não conseguiu atender a ordem do seu Tanaka-san, e chorava copiosamente...

Tanaka segurou-lhe no braço amorenado com a força de um ronim em duelo, sapecando-lhe um beijo selvagem, no que ela amoleceu visivelmente...

Eles tinham chegado a um local do aeroporto de Boa Vista praticamente deserto...

– Eu não entendo você, Tanaka!...

Mas ela não teve tempo de refletir sobre o absurdo daquela sensação incrivelmente boa, ainda que paradoxal, pois levou outro beijo à moda de haraquiri.

– Eu achei que você estava furioso comigo...    

Ela tentou dizer...

– Eu estou!

E toma-lhe outro beijo babado...

– Vamos sair daqui de uma vez... – disse o japonês, arrastando-lhe pelo braço para o estacionamento do aeroporto.

– Aonde você quer ir?!...

Todo o resto é quase dispensável.

Algumas horas depois...

Num quarto de motel nos arredores da capital de Roraima...

– Meu pai quer conversar com você...

Tanaka Osumi fitou aquela pequena com uma ameaça desvelada nos olhos.

– Não é o que você está pensando – volveu ela prontamente, a fim de desfazer um engano.

Ele relaxou e foi até o frigobar pegar um refrigerante.

– Como você sabe o que eu estou pensando?

– Você é engraçado, sabia, Tanaka?

– Não, não sou.

– Não precisa entrar em pânico...

– Você não acha que eu devo me preocupar?

– Claro que não. Além disso, o velho Ildebrando só quer falar sobre negócios, seu bobo...

– Negócios?...

– Ééééé!

– Mas isso nós fazemos todos os dias... – Tanaka, de repente, mudou de humor. – Eu fico imaginando se o velho descobrisse, por exemplo, que você está grávida...

– Deus me livre!

– Ele ia te expulsar de casa?

– Se não fizesse coisa pior!

– Não acho que o Ildebrando fizesse esse tipo de coisa...

– Mas que tipo de coisa você está pensando?

– Matar você.

– Cruzes, Tanaka! Que brincadeira!

– Você não disse que ele poderia fazer uma coisa pior que expulsar você?

– Ah! Isso é uma forma de falar.

– Mataria?

– Você é que está querendo me matar!

– Você não é um estorvo na minha vida, Marina... Embora me atrapalhe às vezes.

– Às vezes eu acho que se não fossem os negócios com meu pai, você me largaria...

– Não me tome por um aventureiro qualquer...

– Se a exportação do arroz se tornasse um mau negócio pra você, nós continuaríamos a nos ver?

– Vejamos por outro lado... Mais prático e menos emocional. Se a exportação da produção de arroz aqui de Roraima se tornasse inviável, talvez eu tivesse que deixar este país...

– Então é verdade?

– É verdade o quê?

– Você me usa, Tanaka.

– E você?... Também não está me usando?

– Claro que não! Eu amo você, Tanaka. Mesmo que você passasse a ser um açougueiro eu ainda continuaria com você...

– Lidando com carnes todo dia? Acho que você enjoaria...

– Seu japonês “englaçadinho”! Acabou que você fugiu de uma resposta...

– Eu não fujo a nada, Marina...

– Então me responda, anda...

– Se eu tivesse que me ausentar do Brasil de que forma eu iria vê-la?

– Eu iria atrás de você... Até no Japão... Se o senhor assim mo permitir.

– Nem por brincadeira você diga uma coisa dessas!

– Tá vendo?! Eu conheço muito bem o seu lado fraco, Tanaka-san!

– E daí? Se você diz que me ama porque iria querer me prejudicar?

– Eu não falei isso... Em algum momento eu falei em te prejudicar?... Não.

– E as plantações... como está o trabalho da colheita?

– Ah, eu não sei, Tanaka! Eu não me meto nos negócios do meu pai. Você tem que ir lá conversar com ele.

– Você sabia que o conflito na Raposa Serra do Sol repercutiu no exterior muito negativamente?

– E eu com isso!  Eu não quero saber dessa história, já falei!... Meu Deus, como eu gostaria de sair de Boa Vista, ir morar no Rio de Janeiro...

– Rio de Janeiro?! Pra quê?! Aquilo lá é um hospício!...

– Eu gosto do Rio... Morar na praia... Já pensou? Eu adoro praia! Você gosta?

– Não. Além do mais elas estão todas poluídas...

– E o que tem isso de mais? Aqui em Boa Vista as mentes é que estão poluídas... As pessoas pensam pequeno, o mundo pra elas é do tamanho desta cidadezinha no meio da floresta, cheia de mosquitos, doenças... Eu odeio essa vida, Tanaka! Me leva daqui!

– Pra onde?!

– Pro Rio. Lá não correríamos nenhum risco, meu amor...

– Nisso você se engana... Redondamente. O Rio é uma cidade cosmopolita; gente do mundo inteiro visita o Rio... de janeiro a dezembro. A possibilidade que eu teria de encontrar um parente ou amigo do Japão é enorme!

– Pode ser que a possibilidade de nós sermos vistos por lá seja a mesma que existe de aparecermos nas colunas sociais de Manaus ou Belém...

– Eu não gostaria de aparecer nas colunas sociais de lugar nenhum!... Nosso compromisso é absolutamente proibido, reservado, e deve continuar assim...

– Eu não pretendo ficar a vida toda me escondendo dos meus amigos...

Tanaka olhou para ela com uma indiferença gritante, quase de desprezo.

– Mas foi você mesma que disse que odeia isso daqui! – volveu Tanaka.

– Isto não quer dizer que eu vou ficar a vida toda me escondendo do mundo como se fosse uma criminosa! Ou uma coisa tem a ver com a outra? Não, que eu saiba... Você acha que a sua família, lá no meio do Japão, iria ver um jornal brasileiro, Tanaka?

       – Não sei... Mas não quero facilitar. Excesso de confiança é o primeiro passo em direção à derrota... O meu filho... Ele... Está começando a se interessar pelo Brasil...

       – Ah, é? – a interrogação de Marina ficou a meio passo entre o sarcasmo e o prazer, embora ela mesma não soubesse especificar o porquê.

       – É... O que não me está agradando nem um pouco.

       – Eu posso imaginar... Já pensou se ele quiser vir uma temporada pra cá?

       E começou a rir gostosamente.

       – Nem pense nisso! – retrucou Tanaka quase em pânico.

       – Não sou eu quem tem que pensar ou deixar de pensar...

       – Em hipótese alguma eu o deixaria vir para o Brasil.          

       – Você tem certeza?

       – Tenho... porquê?

       – Porque dependendo das circunstâncias, uma seqüência de negativas ilógicas deixaria a sua família desconfiada.

       – Talvez você tenha razão... Mas eu não quero discutir isso agora...

       E os beijos recomeçaram...

       Os dois se atracaram na espaçosa cama do motel, embrulhados nos lençóis como dois pasteis orientais. A luz diminuiu lentamente, e outros sons acrescentaram-se à sinfonia tênue...

Sussurros, resmungos e estalos de beijos molhados...

       Marina interrompeu o tratamento de choque.

       – Você vai conversar sobre negócios ainda hoje?

       – Vou pensar nisso também...

       E as câmeras foram proibidas de mostrar a seqüência que se seguiu.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE VII - CAPÍTULO 1


       Sussurrava tão baixinho que ela teve de pedir para ele falar mais alto, tal o cuidado que eles precisavam tomar neste instante, não só devido aos desdobramentos dos últimos acontecimentos em Raposa Serra do Sol, mas também porque uma suspeita generalizada passou a pairar sobre cada elemento do 7º PEF.

       Todos poderiam estar implicados, de alguma maneira, com os criminosos que teriam assassinado os ex-militares Siboldi, Mascarenhas e talvez Gusmão.

       Felipe não descartava, inclusive, sua amiga do peito Celha Regina, por mais que isto o tirasse o sono.

       Mais uma folga havia terminado, e eles estavam justamente encerrando mais uma missão de reconhecimento aos arredores da reserva, missão esta que fora comandada pelo capitão Aleixo, substituto do falecido Siboldi...

       Tudo estava calmo por lá...

       Por enquanto.

       Os índios voltaram a apascentar-se com a promessa do governo federal de que todos os invasores seriam expulsos de suas terras, embora a opinião pública, de uma maneira geral, desacreditasse nesta política de tapa buraco.

       No entanto, o que ainda encafifava nossos dois ternos amigos, Celha Regina e Felipe Corrientes, consistia nos assassinatos não tão misteriosos dos ex-companheiros.

       Armando Paglia ainda dava as cartas por lá...

       Embora Celha e Felipe não soubessem por quanto tempo.

       – Não há dúvida que as mortes deles tinham o intuito de apagar arquivo – comentou Celha Regina, baixo, quase inaudível, o que obrigou Felipe a proferir um “hã?”.

       Ela repetiu:

       – Aquela foi uma situação típica de queima de arquivo, Felipe. Não há outra explicação.

       – Então você está admitindo que eles fossem mesmo ligados ao crime organizado?

       – Porque eles seriam assassinados, da forma como foram, se não fossem?

       – Muito simples, Celhinha! Eles foram a uma festa qualquer naquela noite do crime, mexeram com a mulher de alguém não muito simpático, e levaram bala. Não é assim que muitas brigas são resolvidas hoje em dia em qualquer esquina?    

       – Os crimes não têm a característica de passionais, Felipe. Eu admito que se possa encontrar explicação pra quase tudo, é só ter boa vontade, mas se isto que você cogitou for verdade... Pô! Então os caras que se vingaram dos garanhões Siboldi e Mascarenhas são verdadeiros filhos da puta, que planejam assassinatos com a maior frieza... Não, é forçar muito a barra... Além do mais existem outras coisas pra nos fazer suspeitar que eles realmente se envolveram em algo ilícito...

       – Como, por exemplo, aquela conversa que eu flagrei deles, no dormitório, algumas noites atrás...

– Isso. Lembre-se também da armação do Siboldi ao nos mandar por uma trilha na mata, dando a entender que nós iríamos cercar os grileiros, quando, na verdade, ele fez foi nos isolar...

– E você parecia conhecer aqueles caminhos muito melhor do que qualquer um de nós...

– Não adianta você jogar verde pra cima de mim, tá, Felipe? A minha única vantagem é que eu faço o dever de casa. Uma das primeiras providências que eu tomei, ao me deparar com o tipo de missão que íamos desenvolver, foi fazer uma varredura completa pela internet daquela região, o que me deu a noção exata de onde nós estávamos...

– Sei...

– Que você está querendo insinuar?! Que eu sou a chefona do tráfico de drogas em Roraima?!

– Calma, Celha. Não precisa ficar tão nervosa...

– Se você está vivo, deve a mim, tá?

– Eu sei disso; não estou cobrando nada de você. Eu só quero entender o que tá acontecendo aqui na Amazônia, só isso...

– Nós sabemos o que está acontecendo...

– Eu não sei não! Estou cada vez mais confuso...

– O que eles querem é que pessoas como nós, que têm o poder de solucionar muitas das questões escusas que rolam por aqui, não esclareçamos nada ao contribuinte, e a Amazônia caia nas mãos de homens e mulheres inescrupulosos que vão loteá-la totalmente para fins comerciais, acabando com o meio ambiente. É isto que está acontecendo... ou não é?

– Sim, mas quem é que está mandando? Quem são os cúmplices, os corrompidos que permitem esse tipo de coisas? Qual foi o papel do Siboldi e seus capangas nisto? São muitas incógnitas.

– E o delegado da Polícia Federal? Possuía as respostas?

– O Mouzon? Acho que não. Está mais encalacrado do que nós...

– Como é o nome dele todo?

– Eu não sei. Ele me deu um cartão. Só tinha um nome, ou sobrenome: Mouzon – Delegado Polícia Federal, E-mail, etc.

– Tenho minhas dúvidas...

– Você também?

– Como assim, eu também? Por quem você está me tomando, hem, Felipe?

– Por uma mulher muito esperta...

Neste instante Celha fitou-o bem fundo nos olhos.

– Só isso? – volveu ela, provocativa.

Felipe não sustentou aquele olhar por muito tempo. Havia qualquer coisa naqueles olhos que o feriam de morte.

– Você é merecedora da mais absoluta admiração, sabia? Você venceu onde 99% das pessoas falhariam...

– Eu não quero que você fique repetindo isso toda vez, sabe, Felipe? Eu venci esta etapa, tudo bem, mas possuo outros atributos que agora me levam adiante... Eu quero ser reconhecida como qualquer mulher; não quero que o meu passado, as minhas baixas perspectivas de sobrevivência pretéritas, seja levado em conta toda vez que eu me deparar com a simples condição de mulher... Entende, Felipe?

Claro que entendia, e corou por isto...

No entanto Felipe não teve coragem para dar um passo adiante...

E disse, simplesmente:

– São estas as suas dúvidas?

– Depende do momento. Neste exato instante não eram...

– Mas em relação a este caso nebuloso, você já chegou a alguma conclusão?

– Felipe! Não é isso que me interessa neste momento, já disse!

Todavia Corrientes continuou na defensiva, ainda que suas palavras dissessem justamente o contrário.

– Eu tenho certeza que você juntou 1 + 1...

– Claro que juntei! – atacou ela concupiscentemente...

Mas o nobre tenente do exército brasileiro recolheu mais uma vez a sua espada...

– O que você achou desse delegado?

Celha soçobrou:

– O que eu achei dele?! Mas foi você quem conheceu o homem...

– Sim, mas o que lhe parece, baseado no que eu lhe falei?

– Ele me parece muito esperto...

Felipe a fitou com uma cara de quem se depara com um engenho espacial inédito, sem encontrar explicações para tal.

Celha continuou:

– Ele é um daqueles sujeitos que não desprezam nada em termos de informações, fazendo jus àquele ditado: “pra bom entendedor, meia palavra basta”...

– Assim é, se lhe parece.

– Ele pediu informações sobre mim?

– Não se preocupe. Não falei nada que pudesse despertar qualquer curiosidade sobre você...

– E quem lhe deu o direito de falar por mim na minha ausência?

– Ele ia acabar descobrindo, de uma maneira ou de outra. O Mouzon pareceu muito esperto realmente...

– Eu compreendo... Você se identificou com o cara...

– Fica fria. Não é o meu tipo – retrucou ele zombeteiro.

– Eu não tenho nada com isso. Mas você disse a ele que nós éramos amigos?

– Éramos?

– Não importa o tempo do verbo. É óbvio que ele já deduziu que eu e você formamos uma facção oposta ao Siboldi e aos outros; só resta saber onde o comandante do batalhão fica nesta história...

– E onde o Paglia fica nesta história?

– Boa pergunta...

– Você tem a resposta?

– Não, mas acredito que o delegado não vai demorar a descobrir, porque aí reside um ponto importante nesta investigação...

– Tá vendo só? Você me surpreende cada vez mais...

– Tudo o que eu falei é lógico...

– Nem sempre o óbvio é perceptível... Você, por exemplo... Você sabia que é meu talismã aqui neste fim de mundo?

– Nossa! Quanta honra! O que deu em você?

– Como assim?

– Você não costuma me elogiar dessa maneira.

– É verdade mesmo!

– É verdade o quê?

– Você... É meu pé de coelho...

– Quando você chegou a esta conclusão?

– Eu estava pensando em você um dia desses...

– É mesmo?!

– Sério! Eu venho pensando há muito tempo nisso tudo que está acontecendo...

– Sobre... nós?

 – Em como a vida nos envolve às vezes de tal maneira que quando nos damos conta...

– O que acontece?

Felipe levou algum tempo para responder.

– Eu não sei, Celha...

– Você é feliz, Felipe?

– Acho que... Porque esta pergunta agora?

– É ou não é?

 – E você?

– Sou, claro. Faço aquilo que gosto; não sou remunerada como acho que deveria, mas ainda assim ganho bem mais do que necessito pra viver, e muito mais do que a maioria do povo brasileiro precisa pra sobreviver com o mínimo de conforto. Você não acha que nós somos privilegiados?

– Sob este aspecto, tudo bem, mas o mundo não é feliz, nós não somos felizes, vivemos nos enganando...

– O fato de nós não sermos felizes, por qualquer motivo que seja, não elimina a outra possibilidade, que as pessoas possam ser felizes, sim senhor.

– Essa felicidade que você menciona pra mim cheira a ignorância...

– Quem sabe esta desincompatibilidade absurda não demonstre uma fragilidade infantil quase patológica...

– Pode ser. Mas uma coisa é a mente patologicamente enferma, uma questão subjetiva, retórica, autoritária, que depende de um receptor, alguém que interprete esta mensagem como tal, e outra bem diferente é a sociedade com o atestado de saúde vencido...

– O seu problema, Felipe, é que você confunde a sua condição com a do mundo...

– Mais uma vez sou obrigado a te perguntar...

– Sim! Sou feliz sim! E não tenho medo de repetir isto. E você não é feliz porque não quer...

 – Fala sério, Celha Regina! Você nunca teve a sensação de que tudo caminha tremendamente errado? Que ao invés de nós melhorarmos a condição humana, o que parece é que nós a pioramos cada vez mais?

– O tempo todo a gente tem esta sensação. Uma pessoa de bem percebe que há muita coisa errada, sim, mas nem por isso nós vamos nos desesperar...

– Desesperar?

– É claro. Basta que cada um faça a sua parte...

– Fazer a minha parte não é o bastante, Celha! Há quantos e quantos séculos os homens inteligentes, os instruídos, os melhores capacitados, os intelectuais, tentam fazer a sua parte? Adiantou alguma coisa? Não! Desesperar é pouco! Um homem de bem, como você disse, na verdade deveria se retirar do mundo...

– Suicidar-se?!

– Suicidar-se em carne e osso? Não precisa! Basta renunciar a tudo o que é humano.

– Só existe uma forma de fazer isso: a mendicância total e absoluta; assim mesmo é impossível renunciar à condição humana, ela é inerente ao pensamento, mesmo que deturpado pela necessidade...

– A mendicância espiritual é abolir qualquer alternativa de reforma, qualquer tentativa de revolução, posto que elas também sejam inúteis!

– O que você diz, simplesmente, é um absurdo! Um mundo inviável... Sob quaisquer aspectos... Sem saída. Você é um poeta, sabia? Porque você não escreve poesias? Talvez isto lhe dê uma compreensão maior do mundo, das pessoas...

– Se a poesia fosse uma solução, Platão não a teria excluído de sua República, e Cervantes não teria concebido o seu Quixote como um louco.

– Você é impossível, sabia?

– Não. Sou apenas o que o mundo merece. E ele não merece ninguém melhor; a maior prova disso são nossos mártires caídos...

– E, no entanto, você diz isso tudo no seio de uma instituição que deveria defender tudo aquilo em que você não acredita... Você não tem medo de ser perseguido por uma ufania tola que não vai libertar o mundo de sua ignorância sem par?

– E quem vai dar importância a isto que eu estou dizendo?

– Eu! – disse Celha, quebrando a seriedade do assunto. – Também sou uma oficial do exército brasileiro, e estou aqui dando ouvidos a um maluco delirante – acrescentou ela de maneira lúdica.

– Você é inofensiva – retrucou Felipe no mesmo tom.

– Cuidado, hem!

– Porquê?

– E se eu vier a quebrar a sua confiança?

– Você não faria isso...

– Você tem certeza?

– Tenho.

– Eu não teria se fosse você.

– Porquê? Você vai me denunciar ao Paglia, dizendo que eu sou um elemento subversivo dentro do exército? Isso é coisa do passado!

– Não sei não, hem! A história, muitas vezes, é como as marés. Vai e volta.

– Eu confiaria a minha vida em suas mãos...

– A gente não deve dar uma procuração em branco a uma pessoa...

– A você eu daria, Celha...

– Mas eu me recuso a aceitar!

– Ainda assim eu faria isso.

– Você pode se arrepender pelo resto de sua vida...

– Jamais me arrependeria...

– Mas porque, cara?!

– Mais uma vez eu não tenho uma resposta racional... Esqueça tudo o que eu te disse. Esqueça que eu no fundo não passo de um homem revoltado. Mas não de graça. As coisas são diferentes quando você gosta de uma pessoa...

– Mas se você estiver errado em relação a mim?

– Não tem importância. É difícil pra você me entender?

– Não, Felipe. Eu já te entendi Mas você não me conhece como imagina.

– Porquê? Porque eu nunca fui a Recife conhecer a sua família?

– Mesmo que você tivesse ido... Talvez isto não fosse suficiente...

– Porque vocês gostam de complicar tudo, hem?!

– Vocês, quem, cara pálida?

– Vocês mulheres! Sabe de uma coisa, Celha? Toque de recolher... Daqui a pouco teremos o chá das cinco, depois virá o jantar, e depois...

– Depois?...

– A hora dos sonhos.

– Sonhe com alguém que você gosta...

– Vou tentar...

– Tchau, Fê...

– Tchau... Misteriosa...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE VI - CAPÍTULO 3


        Essa merda foi um tédio a manhã toda...

       Puta que o pariu!

       Só no banheiro, pra retocar a maquiagem, eu fui umas três vezes! Fora as outras vezes...

       Que saco!

Eu não tenho nada pra fazer...

       Pouca gente veio trabalhar hoje...

       As salas estão praticamente vazias...

       Há um grupo que ainda está na Amazônia, colhendo informações depois da tempestade que assolou a reserva Raposa Serra do Sol, mas do pessoal do suporte, eu só vi aqui hoje o Pereira...

       Acho que ele saiu com a Dona Wirna...

       Eu a vi chegar, mas numa dessas minhas idas ao banheiro – estou um pouquinho nervosa hoje, não sei, acho que alguma coisa vai acontecer, ai! – mas depois ela saiu outra vez...

       O Celso ainda não deu as caras hoje...

       Eles saíram muito tarde daqui ontem...

       Ele e a dona Wirna...

       Oito e meia da noite ela me mandou embora...

       Quer dizer, que horas eles devem ter saído?...

       Sei lá!

       O meu expediente termina as seis, como todo mundo normal, mas a dona Wirna mandou que eu ficasse plantada ao lado do telefone porque aguardava notícias importantes da Raposa...

       Acabou que as tais notícias não vieram...

       Na verdade eu não vi nada do que se passou naquela sala, depois que eles se trancaram lá por volta das cinco e trinta e cinco...

       Cala-te boca!

       Não tenho nada com a vida deles...

       Todos dois são jovens...

       Bonitos e solteiros!

       Aliás, acontecem umas coisas aqui na Sweetwaters muito esquisitas...

       Coisas pra 007 ver...

       Cala-te boca!...

       Por falar em bonito...

       Eu tenho sentido falta do Alberto...

       Ele é um dos que ficaram lá na Amazônia...

       “Ah, Sylvinha, como eu gosto desses teus cabelos dourados, lisinhos”...

       Adoro quando ele fala neste tom comigo...

       Se eu não fosse casada!

       Mas ele é também!...

       Nossa! Homem não vale porra nenhuma mesmo!...

       Não coloco a mão no fogo nem pelo meu...

       Aliás por homem nenhum!...

       O Alberto é outro galinha daqui da Sweetwaters...

       Ele já pegou a Thereza e a Paula...

       Todo mundo sabe disso...

       E é casado, hem!...

       Realmente...

       Homem não vale nada!...

       “Esse seu rostinho cheio de sardinhas, Sylvinha”, diz ele pra mim. “Você tem um corpinho de colegial, sabia?”  

       Eu sempre tive esse corpitcho... desde nova... Quer dizer, quem me vê falar assim vai pensar que eu sou muito velha, né?...

       Que nada! Só tenho 31 anos de idade...

       Ainda dou pro gasto!...

       Se eu não fosse casada...

       O telefone toca na mesa de dona Sylvia Salgado...

       – Sweetwaters, boa tarde!... Não, ela ainda não voltou... Mas não deve demorar muito não... O Seu Celso? Ainda não apareceu por aqui hoje... Não, não sei... Ela deve estar no almoço... Dona Wirna almoça cedo... Eu direi a ela... Seu Sérgio Tavares... (Sylvia anota num bloquinho que fica na sua mesa) Folha da Tarde?... Pode deixar... Eu passo seu recado pra ela... Muito obrigada. Pro Senhor também.

       Esse cara ligou ontem pra dona Wirna, mas ela estava trancada lá no escritório com o Celso Pontes e não quis atender...

       Eu dei o recado quando ela me dispensou, mas, pelo jeito, ela não retornou a ligação pro tal jornalista...

       Que se foda! Eu fiz a minha parte...

       Sempre faço...

       Não deixo o meu na reta não...

       Wirna Schwarschlegell entra neste instante, para surpresa de Sylvia, que ainda estava divagando...

       – Ah! Dona Wirna! O tal do Sérgio Tavares acabou de ligar pra senhora. O Seu Celso ainda não chegou. Por acaso o Pereira estava com a senhora? É que a esposa dele ligou.

       – Sylvia, por favor. Assim que o Celso chegar não o deixe ficar voando por aí. Mande-o direto para minha sala, está bem?

       – Pode deixar, dona Wirna...

       Até que essa austríaca não tem quase sotaque...

       Ela não dá sopa pro Celso...

       Marca ele ali, ó...

       – Ah, seu Celso... (ele vai entrando e só cumprimenta Sylvia ligeiramente com um aceno de cabeça. Não sorri nem nada) Dona Wirna quer falar com o senhor... (ele abre a porta do escritório particular dos dois e fecha a porta com estardalhaço) Acho que é urgente...

       Estão cara a cara outra vez.

       Entreolharam-se discretamente, olhar indecifrável, mas algo não caminha bem como deveria...

       – O tal do Sérgio Tavares voltou a me ligar agora pela manhã – diz Wirna um pouco preocupada, deixando o alemão natalício imiscuir-se no português bem articulado.

       – Que que tem? – retruca Celso. Parece irritado. – Deixa ele vir. Qual o problema?

       – Ele vai nos bombardear de perguntas novamente.

       – Não é o que a gente quer?

       – A coisa tá muito confusa na Raposa Serra do Sol, Celso. A nossa equipe continua...

       – A opinião pública tem que saber, Wirna! De uma maneira ou de outra...

       – Não é melhor nós trabalharmos o terreno mais um pouco?

       – De jeito nenhum! Chama o Sérgio Tavares...

       Wirna vai até a porta do escritório e a entreabre.

       – Sylvia, liga pro Sérgio Tavares. Diz que ele pode vir conversar conosco.

       – Sim senhora, dona Wirna...

       Não demorou muito, e Sérgio Tavares adentrou a Sweetwaters com um ar de triunfo estampado no rosto.

       Não sei porque, mas eu não gosto muito desse cara...

       O comentário partiu da cabecinha de Sylvia Salgado, a secretária de Wirna Schwarschlegell.

       Não sei, mas ele tem qualquer coisa de mentiroso...

Que nem certos advogados...

       Concluiu Sylvia, não muito diplomática.

       Sérgio Tavares entrou no escritório de Wirna e Celso...

       Celso Pontes fechou a porta...

       Mas Sylvia não desligou as orelhas...

       – Por favor, senhor Sérgio Tavares. Sente-se...

       – Pode me chamar somente pelo nome... Você é Wirna Schwarschlegell? – ela confirmou com um gesto simples de cabeça. – Você então só pode ser o Celso?...

       Celso se aproximou do jornalista e lhe apertou a mão, cordialmente. Sentou ao lado dele. Os dois estavam de frente para Wirna, colocada atrás da enorme mesa de reuniões.

       – Você é que foi testemunha dos acontecimentos na reserva Raposa Serra do Sol? – Voltou à carga Sérgio Tavares.

       – Eu mesmo – confirmou Celso.

       – O que, exatamente, está acontecendo por lá?

       – Você ainda não sabe? – devolveu a pergunta Celso.

       – O mundo todo tem conhecimento, mas eu gostaria de esmiuçar mais detalhes. O meu jornal publicou uma matéria de página inteira sobre os acontecimentos da Raposa Serra do Sol, não sei se vocês leram?... – ambos tinham lido. – Então. Estou viajando pra Boa Vista amanhã. A Folha da Tarde vai fazer uma matéria especial na semana que vem...

       – Isto é excelente, Sérgio! – disse Wirna verdadeiramente entusiasmada. – Os índios, os bichos, o meio ambiente, todos vão adorar!

       – Existem fortes indícios de que aquela área de proteção está praticamente loteada, e a maioria dos proprietários seria estrangeira que em breve farão valer os seus direitos legais junto ao governo brasileiro, ou seja, transformariam tudo numa região para turismo internacional e para exploração de suas riquezas. Vocês confirmam estas notícias?

       – Se é uma área de preservação, Sérgio... – replicou Wirna com alguma ironia – como podem lotear?

       – Os próprios índios teriam loteado a reserva.

       – Toda a área que compreende a reserva Raposa Serra do Sol – continuou Wirna – é de uso dos índios, Sérgio, mas é a República Federativa do Brasil quem tem o controle sobre toda a região...

       Sérgio Tavares virou-se para Celso e perguntou:

       – O que você me diz sobre isso?

       – Olha, Sérgio, é como ela falou...

       – Não, eu quero saber o que está acontecendo lá de fato. Você esteve lá e viu. Eu vou lá investigar, e semana que vem vou publicar uma matéria que pode desmentir tudo ou confirmar as barbaridades que andam falando a respeito.

       – A situação é caótica, Sérgio – disse Celso, com um ar de quem anuncia uma missa de sétimo dia. – Tudo isso que a Wirna falou é verdade... No papel. Os colonos já estão lá há muito tempo, desde antes da década de vinte do século passado. Os rizicultores, hoje, reivindicam o sul da reserva, mas é possível que aquela região esteja toda comprometida...

       Sérgio Tavares olhava ora para Wirna, ora para Celso, tentando encontrar algum furo na história, pois não acreditara na mesma.

       – Comprometida por quem? – perguntou o jornalista.

       – Você irá comprovar com seus próprios olhos, Sérgio – completou Celso, como que adivinhando seus pensamentos. – Pode ser que alguns chefes tribais já estejam comprados. Mas não são eles os principais interessados em que aquela área passe a ser uma região internacional. Os índios imaginam – pelo menos os mais ingênuos – que sob uma administração internacional sua cultura tenha maiores chances de ser preservada, entretanto, pra piorar a situação, alguns dos caciques não estão nem aí pra Amazônia ou seus povos, querem mesmo é ficar ricos com as promessas dos capitalistas...

       – Mas como ela seria administrada... Como a Antártida?

       – Isso tudo não passa de terror virtual, mas é claro que a presença estrangeira na região é muito grande...

       – Isto é um absurdo! – espocou Sérgio Tavares. – O mundo não aceitaria que algumas nações comandassem a Amazônia!

       – Essas “nações” não comandam o petróleo, a economia? É o mesmo quadro em todo lugar – continuou Celso com resignação. – Não sei se a Folha da Tarde vai ter colhão pra publicar a verdade.

       – E o povo brasileiro, o que acha disso?

       – Qual povo brasileiro? – inquiriu Wirna. Não obtendo resposta, ela mesma respondeu: – O povo brasileiro está sempre à margem de todas as decisões. Mas não foi sempre assim ao longo de sua história?

       – Algum dia isto pode acabar...

       – Algum dia, Sérgio – volveu Wirna, debochada, taxativa. – Mas não neste século.

       – Bem... Muito obrigado – continuou Sérgio Tavares, visivelmente consternado. – Essas informações que vocês me deram... Posso citar a Sweetwaters na reportagem?

       Wirna e Celso se entreolharam demoradamente.

       – É melhor não – disse Wirna à vontade. – A verdade virá à tona mais cedo ou mais tarde. O tipo de informação que nós temos divulgado nunca passou da superfície; aquela que todo mundo sabe: grileiros, madeireiros, interesses espúrios capitalistas, essas coisas. Não sei se o Brasil está preparado pra admitir a verdade verdadeira...

       – Você está me sugerindo então...

       – Faça a sua matéria, Sérgio Tavares. Nós não sabemos que tipo de autocensura o seu jornal vai impor...

       – O meu jornal não impõe nenhum tipo de autocensura, senhorita Schwarschlegell.

       – Nós sabemos que isto não é verdade, não é Sérgio? Deixe a Sweetwaters fora desta sua reportagem. A maior parte da verba que nos sustenta vem dos Estados Unidos e da Inglaterra... Dá pra entender?

       – Estamos entendidos – concluiu o jornalista em tom enfático.

       Sérgio Tavares saiu da sala acompanhado por Celso Pontes...

       Sylvia estava de plantão...

       Queria ter ouvidos de cachorro pra entender tudo o que esses três estavam conversando, pensou ela...

       Ainda bem que ela nem desconfiava...

       Mas o destino ainda guardaria uma surpresa para a senhora Sylvia Salgado...

       – Sylvia – disse Wirna, ar grave, saindo também. – Não deixe ninguém entrar nesta sala. Vou ao banheiro...

       – Pois não, dona Wirna...

       Quando Wirna Schwarschlegell deu aquela ordem, Sylvia não entendeu que ela estava incluída no número de pessoas desautorizadas a entrar no escritório naquele momento, e ela, Sylvia, fez apenas o que deveria fazer para confirmar se tudo estava direitinho no seu lugar; Sylvia não tinha nenhuma intenção de xeretar nas coisas dos seus chefes, porém, como havíamos adiantado algumas linhas antes, o destino reservara uma surpresa inusitada a Sylvia Salgado, embora ela não tivesse ferramentas para avaliar se boa ou não; o fato é que quando ela entrou na sala para dar aquela espiadela básica, reparou que o laptop de Celso estava aberto e funcionando...

       Sylvia contornou a mesa e deu uma espiada, a fim de verificar se tudo estava realmente bem com a máquina...

       De fato...

Nada havia de errado com o “notebook” de Celso Pontes...

Mas ela foi além do permitido, e debruçou-se rapidamente sobre a tela aberta de um arquivo...

Foi o suficiente para ler algumas linhas muito obscuras que absolutamente não lhe diziam nada, e nem lhe interessava aquele conteúdo...

Entretanto, Sylvia guardou bem as seguintes palavras: “Confirmando todas as informações enviadas a Smith II. Nenhuma mudança. O plano segue como o estabelecido”...

Sylvia saiu da sala e voltou para sua mesa, que ficava bem em frente à porta do escritório, sem entender nada, porque nada a importou, a não ser o seu batom, que estava quase acabando...

“Era tão caro!”...