quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE VII - CAPÍTULO 1


       Sussurrava tão baixinho que ela teve de pedir para ele falar mais alto, tal o cuidado que eles precisavam tomar neste instante, não só devido aos desdobramentos dos últimos acontecimentos em Raposa Serra do Sol, mas também porque uma suspeita generalizada passou a pairar sobre cada elemento do 7º PEF.

       Todos poderiam estar implicados, de alguma maneira, com os criminosos que teriam assassinado os ex-militares Siboldi, Mascarenhas e talvez Gusmão.

       Felipe não descartava, inclusive, sua amiga do peito Celha Regina, por mais que isto o tirasse o sono.

       Mais uma folga havia terminado, e eles estavam justamente encerrando mais uma missão de reconhecimento aos arredores da reserva, missão esta que fora comandada pelo capitão Aleixo, substituto do falecido Siboldi...

       Tudo estava calmo por lá...

       Por enquanto.

       Os índios voltaram a apascentar-se com a promessa do governo federal de que todos os invasores seriam expulsos de suas terras, embora a opinião pública, de uma maneira geral, desacreditasse nesta política de tapa buraco.

       No entanto, o que ainda encafifava nossos dois ternos amigos, Celha Regina e Felipe Corrientes, consistia nos assassinatos não tão misteriosos dos ex-companheiros.

       Armando Paglia ainda dava as cartas por lá...

       Embora Celha e Felipe não soubessem por quanto tempo.

       – Não há dúvida que as mortes deles tinham o intuito de apagar arquivo – comentou Celha Regina, baixo, quase inaudível, o que obrigou Felipe a proferir um “hã?”.

       Ela repetiu:

       – Aquela foi uma situação típica de queima de arquivo, Felipe. Não há outra explicação.

       – Então você está admitindo que eles fossem mesmo ligados ao crime organizado?

       – Porque eles seriam assassinados, da forma como foram, se não fossem?

       – Muito simples, Celhinha! Eles foram a uma festa qualquer naquela noite do crime, mexeram com a mulher de alguém não muito simpático, e levaram bala. Não é assim que muitas brigas são resolvidas hoje em dia em qualquer esquina?    

       – Os crimes não têm a característica de passionais, Felipe. Eu admito que se possa encontrar explicação pra quase tudo, é só ter boa vontade, mas se isto que você cogitou for verdade... Pô! Então os caras que se vingaram dos garanhões Siboldi e Mascarenhas são verdadeiros filhos da puta, que planejam assassinatos com a maior frieza... Não, é forçar muito a barra... Além do mais existem outras coisas pra nos fazer suspeitar que eles realmente se envolveram em algo ilícito...

       – Como, por exemplo, aquela conversa que eu flagrei deles, no dormitório, algumas noites atrás...

– Isso. Lembre-se também da armação do Siboldi ao nos mandar por uma trilha na mata, dando a entender que nós iríamos cercar os grileiros, quando, na verdade, ele fez foi nos isolar...

– E você parecia conhecer aqueles caminhos muito melhor do que qualquer um de nós...

– Não adianta você jogar verde pra cima de mim, tá, Felipe? A minha única vantagem é que eu faço o dever de casa. Uma das primeiras providências que eu tomei, ao me deparar com o tipo de missão que íamos desenvolver, foi fazer uma varredura completa pela internet daquela região, o que me deu a noção exata de onde nós estávamos...

– Sei...

– Que você está querendo insinuar?! Que eu sou a chefona do tráfico de drogas em Roraima?!

– Calma, Celha. Não precisa ficar tão nervosa...

– Se você está vivo, deve a mim, tá?

– Eu sei disso; não estou cobrando nada de você. Eu só quero entender o que tá acontecendo aqui na Amazônia, só isso...

– Nós sabemos o que está acontecendo...

– Eu não sei não! Estou cada vez mais confuso...

– O que eles querem é que pessoas como nós, que têm o poder de solucionar muitas das questões escusas que rolam por aqui, não esclareçamos nada ao contribuinte, e a Amazônia caia nas mãos de homens e mulheres inescrupulosos que vão loteá-la totalmente para fins comerciais, acabando com o meio ambiente. É isto que está acontecendo... ou não é?

– Sim, mas quem é que está mandando? Quem são os cúmplices, os corrompidos que permitem esse tipo de coisas? Qual foi o papel do Siboldi e seus capangas nisto? São muitas incógnitas.

– E o delegado da Polícia Federal? Possuía as respostas?

– O Mouzon? Acho que não. Está mais encalacrado do que nós...

– Como é o nome dele todo?

– Eu não sei. Ele me deu um cartão. Só tinha um nome, ou sobrenome: Mouzon – Delegado Polícia Federal, E-mail, etc.

– Tenho minhas dúvidas...

– Você também?

– Como assim, eu também? Por quem você está me tomando, hem, Felipe?

– Por uma mulher muito esperta...

Neste instante Celha fitou-o bem fundo nos olhos.

– Só isso? – volveu ela, provocativa.

Felipe não sustentou aquele olhar por muito tempo. Havia qualquer coisa naqueles olhos que o feriam de morte.

– Você é merecedora da mais absoluta admiração, sabia? Você venceu onde 99% das pessoas falhariam...

– Eu não quero que você fique repetindo isso toda vez, sabe, Felipe? Eu venci esta etapa, tudo bem, mas possuo outros atributos que agora me levam adiante... Eu quero ser reconhecida como qualquer mulher; não quero que o meu passado, as minhas baixas perspectivas de sobrevivência pretéritas, seja levado em conta toda vez que eu me deparar com a simples condição de mulher... Entende, Felipe?

Claro que entendia, e corou por isto...

No entanto Felipe não teve coragem para dar um passo adiante...

E disse, simplesmente:

– São estas as suas dúvidas?

– Depende do momento. Neste exato instante não eram...

– Mas em relação a este caso nebuloso, você já chegou a alguma conclusão?

– Felipe! Não é isso que me interessa neste momento, já disse!

Todavia Corrientes continuou na defensiva, ainda que suas palavras dissessem justamente o contrário.

– Eu tenho certeza que você juntou 1 + 1...

– Claro que juntei! – atacou ela concupiscentemente...

Mas o nobre tenente do exército brasileiro recolheu mais uma vez a sua espada...

– O que você achou desse delegado?

Celha soçobrou:

– O que eu achei dele?! Mas foi você quem conheceu o homem...

– Sim, mas o que lhe parece, baseado no que eu lhe falei?

– Ele me parece muito esperto...

Felipe a fitou com uma cara de quem se depara com um engenho espacial inédito, sem encontrar explicações para tal.

Celha continuou:

– Ele é um daqueles sujeitos que não desprezam nada em termos de informações, fazendo jus àquele ditado: “pra bom entendedor, meia palavra basta”...

– Assim é, se lhe parece.

– Ele pediu informações sobre mim?

– Não se preocupe. Não falei nada que pudesse despertar qualquer curiosidade sobre você...

– E quem lhe deu o direito de falar por mim na minha ausência?

– Ele ia acabar descobrindo, de uma maneira ou de outra. O Mouzon pareceu muito esperto realmente...

– Eu compreendo... Você se identificou com o cara...

– Fica fria. Não é o meu tipo – retrucou ele zombeteiro.

– Eu não tenho nada com isso. Mas você disse a ele que nós éramos amigos?

– Éramos?

– Não importa o tempo do verbo. É óbvio que ele já deduziu que eu e você formamos uma facção oposta ao Siboldi e aos outros; só resta saber onde o comandante do batalhão fica nesta história...

– E onde o Paglia fica nesta história?

– Boa pergunta...

– Você tem a resposta?

– Não, mas acredito que o delegado não vai demorar a descobrir, porque aí reside um ponto importante nesta investigação...

– Tá vendo só? Você me surpreende cada vez mais...

– Tudo o que eu falei é lógico...

– Nem sempre o óbvio é perceptível... Você, por exemplo... Você sabia que é meu talismã aqui neste fim de mundo?

– Nossa! Quanta honra! O que deu em você?

– Como assim?

– Você não costuma me elogiar dessa maneira.

– É verdade mesmo!

– É verdade o quê?

– Você... É meu pé de coelho...

– Quando você chegou a esta conclusão?

– Eu estava pensando em você um dia desses...

– É mesmo?!

– Sério! Eu venho pensando há muito tempo nisso tudo que está acontecendo...

– Sobre... nós?

 – Em como a vida nos envolve às vezes de tal maneira que quando nos damos conta...

– O que acontece?

Felipe levou algum tempo para responder.

– Eu não sei, Celha...

– Você é feliz, Felipe?

– Acho que... Porque esta pergunta agora?

– É ou não é?

 – E você?

– Sou, claro. Faço aquilo que gosto; não sou remunerada como acho que deveria, mas ainda assim ganho bem mais do que necessito pra viver, e muito mais do que a maioria do povo brasileiro precisa pra sobreviver com o mínimo de conforto. Você não acha que nós somos privilegiados?

– Sob este aspecto, tudo bem, mas o mundo não é feliz, nós não somos felizes, vivemos nos enganando...

– O fato de nós não sermos felizes, por qualquer motivo que seja, não elimina a outra possibilidade, que as pessoas possam ser felizes, sim senhor.

– Essa felicidade que você menciona pra mim cheira a ignorância...

– Quem sabe esta desincompatibilidade absurda não demonstre uma fragilidade infantil quase patológica...

– Pode ser. Mas uma coisa é a mente patologicamente enferma, uma questão subjetiva, retórica, autoritária, que depende de um receptor, alguém que interprete esta mensagem como tal, e outra bem diferente é a sociedade com o atestado de saúde vencido...

– O seu problema, Felipe, é que você confunde a sua condição com a do mundo...

– Mais uma vez sou obrigado a te perguntar...

– Sim! Sou feliz sim! E não tenho medo de repetir isto. E você não é feliz porque não quer...

 – Fala sério, Celha Regina! Você nunca teve a sensação de que tudo caminha tremendamente errado? Que ao invés de nós melhorarmos a condição humana, o que parece é que nós a pioramos cada vez mais?

– O tempo todo a gente tem esta sensação. Uma pessoa de bem percebe que há muita coisa errada, sim, mas nem por isso nós vamos nos desesperar...

– Desesperar?

– É claro. Basta que cada um faça a sua parte...

– Fazer a minha parte não é o bastante, Celha! Há quantos e quantos séculos os homens inteligentes, os instruídos, os melhores capacitados, os intelectuais, tentam fazer a sua parte? Adiantou alguma coisa? Não! Desesperar é pouco! Um homem de bem, como você disse, na verdade deveria se retirar do mundo...

– Suicidar-se?!

– Suicidar-se em carne e osso? Não precisa! Basta renunciar a tudo o que é humano.

– Só existe uma forma de fazer isso: a mendicância total e absoluta; assim mesmo é impossível renunciar à condição humana, ela é inerente ao pensamento, mesmo que deturpado pela necessidade...

– A mendicância espiritual é abolir qualquer alternativa de reforma, qualquer tentativa de revolução, posto que elas também sejam inúteis!

– O que você diz, simplesmente, é um absurdo! Um mundo inviável... Sob quaisquer aspectos... Sem saída. Você é um poeta, sabia? Porque você não escreve poesias? Talvez isto lhe dê uma compreensão maior do mundo, das pessoas...

– Se a poesia fosse uma solução, Platão não a teria excluído de sua República, e Cervantes não teria concebido o seu Quixote como um louco.

– Você é impossível, sabia?

– Não. Sou apenas o que o mundo merece. E ele não merece ninguém melhor; a maior prova disso são nossos mártires caídos...

– E, no entanto, você diz isso tudo no seio de uma instituição que deveria defender tudo aquilo em que você não acredita... Você não tem medo de ser perseguido por uma ufania tola que não vai libertar o mundo de sua ignorância sem par?

– E quem vai dar importância a isto que eu estou dizendo?

– Eu! – disse Celha, quebrando a seriedade do assunto. – Também sou uma oficial do exército brasileiro, e estou aqui dando ouvidos a um maluco delirante – acrescentou ela de maneira lúdica.

– Você é inofensiva – retrucou Felipe no mesmo tom.

– Cuidado, hem!

– Porquê?

– E se eu vier a quebrar a sua confiança?

– Você não faria isso...

– Você tem certeza?

– Tenho.

– Eu não teria se fosse você.

– Porquê? Você vai me denunciar ao Paglia, dizendo que eu sou um elemento subversivo dentro do exército? Isso é coisa do passado!

– Não sei não, hem! A história, muitas vezes, é como as marés. Vai e volta.

– Eu confiaria a minha vida em suas mãos...

– A gente não deve dar uma procuração em branco a uma pessoa...

– A você eu daria, Celha...

– Mas eu me recuso a aceitar!

– Ainda assim eu faria isso.

– Você pode se arrepender pelo resto de sua vida...

– Jamais me arrependeria...

– Mas porque, cara?!

– Mais uma vez eu não tenho uma resposta racional... Esqueça tudo o que eu te disse. Esqueça que eu no fundo não passo de um homem revoltado. Mas não de graça. As coisas são diferentes quando você gosta de uma pessoa...

– Mas se você estiver errado em relação a mim?

– Não tem importância. É difícil pra você me entender?

– Não, Felipe. Eu já te entendi Mas você não me conhece como imagina.

– Porquê? Porque eu nunca fui a Recife conhecer a sua família?

– Mesmo que você tivesse ido... Talvez isto não fosse suficiente...

– Porque vocês gostam de complicar tudo, hem?!

– Vocês, quem, cara pálida?

– Vocês mulheres! Sabe de uma coisa, Celha? Toque de recolher... Daqui a pouco teremos o chá das cinco, depois virá o jantar, e depois...

– Depois?...

– A hora dos sonhos.

– Sonhe com alguém que você gosta...

– Vou tentar...

– Tchau, Fê...

– Tchau... Misteriosa...

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O SENHOR DAS ÁGUAS - UNIDADE VI - CAPÍTULO 3


        Essa merda foi um tédio a manhã toda...

       Puta que o pariu!

       Só no banheiro, pra retocar a maquiagem, eu fui umas três vezes! Fora as outras vezes...

       Que saco!

Eu não tenho nada pra fazer...

       Pouca gente veio trabalhar hoje...

       As salas estão praticamente vazias...

       Há um grupo que ainda está na Amazônia, colhendo informações depois da tempestade que assolou a reserva Raposa Serra do Sol, mas do pessoal do suporte, eu só vi aqui hoje o Pereira...

       Acho que ele saiu com a Dona Wirna...

       Eu a vi chegar, mas numa dessas minhas idas ao banheiro – estou um pouquinho nervosa hoje, não sei, acho que alguma coisa vai acontecer, ai! – mas depois ela saiu outra vez...

       O Celso ainda não deu as caras hoje...

       Eles saíram muito tarde daqui ontem...

       Ele e a dona Wirna...

       Oito e meia da noite ela me mandou embora...

       Quer dizer, que horas eles devem ter saído?...

       Sei lá!

       O meu expediente termina as seis, como todo mundo normal, mas a dona Wirna mandou que eu ficasse plantada ao lado do telefone porque aguardava notícias importantes da Raposa...

       Acabou que as tais notícias não vieram...

       Na verdade eu não vi nada do que se passou naquela sala, depois que eles se trancaram lá por volta das cinco e trinta e cinco...

       Cala-te boca!

       Não tenho nada com a vida deles...

       Todos dois são jovens...

       Bonitos e solteiros!

       Aliás, acontecem umas coisas aqui na Sweetwaters muito esquisitas...

       Coisas pra 007 ver...

       Cala-te boca!...

       Por falar em bonito...

       Eu tenho sentido falta do Alberto...

       Ele é um dos que ficaram lá na Amazônia...

       “Ah, Sylvinha, como eu gosto desses teus cabelos dourados, lisinhos”...

       Adoro quando ele fala neste tom comigo...

       Se eu não fosse casada!

       Mas ele é também!...

       Nossa! Homem não vale porra nenhuma mesmo!...

       Não coloco a mão no fogo nem pelo meu...

       Aliás por homem nenhum!...

       O Alberto é outro galinha daqui da Sweetwaters...

       Ele já pegou a Thereza e a Paula...

       Todo mundo sabe disso...

       E é casado, hem!...

       Realmente...

       Homem não vale nada!...

       “Esse seu rostinho cheio de sardinhas, Sylvinha”, diz ele pra mim. “Você tem um corpinho de colegial, sabia?”  

       Eu sempre tive esse corpitcho... desde nova... Quer dizer, quem me vê falar assim vai pensar que eu sou muito velha, né?...

       Que nada! Só tenho 31 anos de idade...

       Ainda dou pro gasto!...

       Se eu não fosse casada...

       O telefone toca na mesa de dona Sylvia Salgado...

       – Sweetwaters, boa tarde!... Não, ela ainda não voltou... Mas não deve demorar muito não... O Seu Celso? Ainda não apareceu por aqui hoje... Não, não sei... Ela deve estar no almoço... Dona Wirna almoça cedo... Eu direi a ela... Seu Sérgio Tavares... (Sylvia anota num bloquinho que fica na sua mesa) Folha da Tarde?... Pode deixar... Eu passo seu recado pra ela... Muito obrigada. Pro Senhor também.

       Esse cara ligou ontem pra dona Wirna, mas ela estava trancada lá no escritório com o Celso Pontes e não quis atender...

       Eu dei o recado quando ela me dispensou, mas, pelo jeito, ela não retornou a ligação pro tal jornalista...

       Que se foda! Eu fiz a minha parte...

       Sempre faço...

       Não deixo o meu na reta não...

       Wirna Schwarschlegell entra neste instante, para surpresa de Sylvia, que ainda estava divagando...

       – Ah! Dona Wirna! O tal do Sérgio Tavares acabou de ligar pra senhora. O Seu Celso ainda não chegou. Por acaso o Pereira estava com a senhora? É que a esposa dele ligou.

       – Sylvia, por favor. Assim que o Celso chegar não o deixe ficar voando por aí. Mande-o direto para minha sala, está bem?

       – Pode deixar, dona Wirna...

       Até que essa austríaca não tem quase sotaque...

       Ela não dá sopa pro Celso...

       Marca ele ali, ó...

       – Ah, seu Celso... (ele vai entrando e só cumprimenta Sylvia ligeiramente com um aceno de cabeça. Não sorri nem nada) Dona Wirna quer falar com o senhor... (ele abre a porta do escritório particular dos dois e fecha a porta com estardalhaço) Acho que é urgente...

       Estão cara a cara outra vez.

       Entreolharam-se discretamente, olhar indecifrável, mas algo não caminha bem como deveria...

       – O tal do Sérgio Tavares voltou a me ligar agora pela manhã – diz Wirna um pouco preocupada, deixando o alemão natalício imiscuir-se no português bem articulado.

       – Que que tem? – retruca Celso. Parece irritado. – Deixa ele vir. Qual o problema?

       – Ele vai nos bombardear de perguntas novamente.

       – Não é o que a gente quer?

       – A coisa tá muito confusa na Raposa Serra do Sol, Celso. A nossa equipe continua...

       – A opinião pública tem que saber, Wirna! De uma maneira ou de outra...

       – Não é melhor nós trabalharmos o terreno mais um pouco?

       – De jeito nenhum! Chama o Sérgio Tavares...

       Wirna vai até a porta do escritório e a entreabre.

       – Sylvia, liga pro Sérgio Tavares. Diz que ele pode vir conversar conosco.

       – Sim senhora, dona Wirna...

       Não demorou muito, e Sérgio Tavares adentrou a Sweetwaters com um ar de triunfo estampado no rosto.

       Não sei porque, mas eu não gosto muito desse cara...

       O comentário partiu da cabecinha de Sylvia Salgado, a secretária de Wirna Schwarschlegell.

       Não sei, mas ele tem qualquer coisa de mentiroso...

Que nem certos advogados...

       Concluiu Sylvia, não muito diplomática.

       Sérgio Tavares entrou no escritório de Wirna e Celso...

       Celso Pontes fechou a porta...

       Mas Sylvia não desligou as orelhas...

       – Por favor, senhor Sérgio Tavares. Sente-se...

       – Pode me chamar somente pelo nome... Você é Wirna Schwarschlegell? – ela confirmou com um gesto simples de cabeça. – Você então só pode ser o Celso?...

       Celso se aproximou do jornalista e lhe apertou a mão, cordialmente. Sentou ao lado dele. Os dois estavam de frente para Wirna, colocada atrás da enorme mesa de reuniões.

       – Você é que foi testemunha dos acontecimentos na reserva Raposa Serra do Sol? – Voltou à carga Sérgio Tavares.

       – Eu mesmo – confirmou Celso.

       – O que, exatamente, está acontecendo por lá?

       – Você ainda não sabe? – devolveu a pergunta Celso.

       – O mundo todo tem conhecimento, mas eu gostaria de esmiuçar mais detalhes. O meu jornal publicou uma matéria de página inteira sobre os acontecimentos da Raposa Serra do Sol, não sei se vocês leram?... – ambos tinham lido. – Então. Estou viajando pra Boa Vista amanhã. A Folha da Tarde vai fazer uma matéria especial na semana que vem...

       – Isto é excelente, Sérgio! – disse Wirna verdadeiramente entusiasmada. – Os índios, os bichos, o meio ambiente, todos vão adorar!

       – Existem fortes indícios de que aquela área de proteção está praticamente loteada, e a maioria dos proprietários seria estrangeira que em breve farão valer os seus direitos legais junto ao governo brasileiro, ou seja, transformariam tudo numa região para turismo internacional e para exploração de suas riquezas. Vocês confirmam estas notícias?

       – Se é uma área de preservação, Sérgio... – replicou Wirna com alguma ironia – como podem lotear?

       – Os próprios índios teriam loteado a reserva.

       – Toda a área que compreende a reserva Raposa Serra do Sol – continuou Wirna – é de uso dos índios, Sérgio, mas é a República Federativa do Brasil quem tem o controle sobre toda a região...

       Sérgio Tavares virou-se para Celso e perguntou:

       – O que você me diz sobre isso?

       – Olha, Sérgio, é como ela falou...

       – Não, eu quero saber o que está acontecendo lá de fato. Você esteve lá e viu. Eu vou lá investigar, e semana que vem vou publicar uma matéria que pode desmentir tudo ou confirmar as barbaridades que andam falando a respeito.

       – A situação é caótica, Sérgio – disse Celso, com um ar de quem anuncia uma missa de sétimo dia. – Tudo isso que a Wirna falou é verdade... No papel. Os colonos já estão lá há muito tempo, desde antes da década de vinte do século passado. Os rizicultores, hoje, reivindicam o sul da reserva, mas é possível que aquela região esteja toda comprometida...

       Sérgio Tavares olhava ora para Wirna, ora para Celso, tentando encontrar algum furo na história, pois não acreditara na mesma.

       – Comprometida por quem? – perguntou o jornalista.

       – Você irá comprovar com seus próprios olhos, Sérgio – completou Celso, como que adivinhando seus pensamentos. – Pode ser que alguns chefes tribais já estejam comprados. Mas não são eles os principais interessados em que aquela área passe a ser uma região internacional. Os índios imaginam – pelo menos os mais ingênuos – que sob uma administração internacional sua cultura tenha maiores chances de ser preservada, entretanto, pra piorar a situação, alguns dos caciques não estão nem aí pra Amazônia ou seus povos, querem mesmo é ficar ricos com as promessas dos capitalistas...

       – Mas como ela seria administrada... Como a Antártida?

       – Isso tudo não passa de terror virtual, mas é claro que a presença estrangeira na região é muito grande...

       – Isto é um absurdo! – espocou Sérgio Tavares. – O mundo não aceitaria que algumas nações comandassem a Amazônia!

       – Essas “nações” não comandam o petróleo, a economia? É o mesmo quadro em todo lugar – continuou Celso com resignação. – Não sei se a Folha da Tarde vai ter colhão pra publicar a verdade.

       – E o povo brasileiro, o que acha disso?

       – Qual povo brasileiro? – inquiriu Wirna. Não obtendo resposta, ela mesma respondeu: – O povo brasileiro está sempre à margem de todas as decisões. Mas não foi sempre assim ao longo de sua história?

       – Algum dia isto pode acabar...

       – Algum dia, Sérgio – volveu Wirna, debochada, taxativa. – Mas não neste século.

       – Bem... Muito obrigado – continuou Sérgio Tavares, visivelmente consternado. – Essas informações que vocês me deram... Posso citar a Sweetwaters na reportagem?

       Wirna e Celso se entreolharam demoradamente.

       – É melhor não – disse Wirna à vontade. – A verdade virá à tona mais cedo ou mais tarde. O tipo de informação que nós temos divulgado nunca passou da superfície; aquela que todo mundo sabe: grileiros, madeireiros, interesses espúrios capitalistas, essas coisas. Não sei se o Brasil está preparado pra admitir a verdade verdadeira...

       – Você está me sugerindo então...

       – Faça a sua matéria, Sérgio Tavares. Nós não sabemos que tipo de autocensura o seu jornal vai impor...

       – O meu jornal não impõe nenhum tipo de autocensura, senhorita Schwarschlegell.

       – Nós sabemos que isto não é verdade, não é Sérgio? Deixe a Sweetwaters fora desta sua reportagem. A maior parte da verba que nos sustenta vem dos Estados Unidos e da Inglaterra... Dá pra entender?

       – Estamos entendidos – concluiu o jornalista em tom enfático.

       Sérgio Tavares saiu da sala acompanhado por Celso Pontes...

       Sylvia estava de plantão...

       Queria ter ouvidos de cachorro pra entender tudo o que esses três estavam conversando, pensou ela...

       Ainda bem que ela nem desconfiava...

       Mas o destino ainda guardaria uma surpresa para a senhora Sylvia Salgado...

       – Sylvia – disse Wirna, ar grave, saindo também. – Não deixe ninguém entrar nesta sala. Vou ao banheiro...

       – Pois não, dona Wirna...

       Quando Wirna Schwarschlegell deu aquela ordem, Sylvia não entendeu que ela estava incluída no número de pessoas desautorizadas a entrar no escritório naquele momento, e ela, Sylvia, fez apenas o que deveria fazer para confirmar se tudo estava direitinho no seu lugar; Sylvia não tinha nenhuma intenção de xeretar nas coisas dos seus chefes, porém, como havíamos adiantado algumas linhas antes, o destino reservara uma surpresa inusitada a Sylvia Salgado, embora ela não tivesse ferramentas para avaliar se boa ou não; o fato é que quando ela entrou na sala para dar aquela espiadela básica, reparou que o laptop de Celso estava aberto e funcionando...

       Sylvia contornou a mesa e deu uma espiada, a fim de verificar se tudo estava realmente bem com a máquina...

       De fato...

Nada havia de errado com o “notebook” de Celso Pontes...

Mas ela foi além do permitido, e debruçou-se rapidamente sobre a tela aberta de um arquivo...

Foi o suficiente para ler algumas linhas muito obscuras que absolutamente não lhe diziam nada, e nem lhe interessava aquele conteúdo...

Entretanto, Sylvia guardou bem as seguintes palavras: “Confirmando todas as informações enviadas a Smith II. Nenhuma mudança. O plano segue como o estabelecido”...

Sylvia saiu da sala e voltou para sua mesa, que ficava bem em frente à porta do escritório, sem entender nada, porque nada a importou, a não ser o seu batom, que estava quase acabando...

“Era tão caro!”...

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A ERA DE OURO DOS FARSANTES - IV

   Uma das minhas maiores dúvidas enquanto autor consiste em descobrir se existe uma fórmula mágica, a pedra filosofal para se fazer sucesso literário...
   Se existe, me parece que as editoras também não a conhecem...
   É inegável que o livro no Brasil se tornou um grande negócio, mas e a literatura, com letra maiúscula, é um bom investimento ou não é? Acredito que muitos editores responderão de boca cheia a esta provocação: "se o autor for bom nós publicamos".
   Evidentemente que isto é uma grande falácia. Primeiro: o que os editores entendem como um bom autor?
   Por exemplo, H. P. Lovecraft pode ser considerado um bom autor? Hoje em dia, sim; os seus contos publicados no Brasil estão esgotados, e as livrarias sebo disputam no tapa um exemplar qualquer para exibí-lo em suas prateleiras repletas de teias de aranhas, porém, na época em que ele vivia, ninguém o publicou.
   E James Joyce, é um bom escritor ou não é? A crítica o chama de gênio; os mestres literários seguem seus passos, e, no entanto, no seu tempo de vida Joyce teve de bancar a publicação de várias de suas histórias.
   É assim que a banda toca...
   Diriam alguns...
   Notas dissonantes, harmonia pífia, diria eu...
   Os exemplos abundam.
   Os argumentos dos editores esbarram em questões estéticas? Não, muito pior do que isso! Apóiam-se nos indices da economia, e todos sabemos que Economia é a grande arte da prestidigitação.
   Na verdade, quaisquer conceitos, ou preconceitos, que se possam coligir em torno da difícil arte de escrever, eles sempre serão subjetivos. Digam o que quiser, mostrem os alfarrábios que desejarem. Àquela balela de que "estamos de olho no mercado editorial", e outras asneiras parecidas não se sustentam com o passar do tempo; não cabem mais.
   Só existe duas maneiras para se julgar um bom autor. A primeira, obviamente, é o termômetro chamado leitor, apesar de que, ultimamente, com a dissimulação velhaca do marcheting, isto também não quer dizer muita coisa.
   Então só nos resta uma prova: a do tempo. Somente o bom autor sobreviverá aos pósteros, ratificando e consolidando definitivamente seu nome na galeria dos eleitos do Parnaso. Infelizmente, nem sempre o escritor sobreviverá para assistir a sua apoteose, que muitas vezes só ocorrerá décadas depois de sua morte.
   Não quero julgar o que está certo ou errado, mas é inegável que nós temos uma tradição terceiromundista em termos editoriais. O que significa isto? Publica-se à socapa o que há de pior e o que há de melhor na língua inglesa...
   No segundo caso tudo bem! Mas enquanto isso, nós aqui do tupi or not tupi, ficamos de fora da "política" das editoras nacionais, principalmente nas grandes casas...
   Isto é outra coisa fora de dúvida! Os autores nacionais não têm vez nas editoras brasileiras, principalmente os novatos... E por que as coisas são assim?
   Perguntem aos editores!
   A grandeza do Brasil desponta em todos os quadrantes deste ínfimo planetinha periférico, menos nas editoras brasileiras...
   Caberá às nossas honradas casas editoriais erguerem seus olhos para esta grandeza desconhecida que fala português. Só assim o leitor brasileiro criará uma consciência crítica do que há de melhor e de pior na nossa literatura...
   Espero que nas décadas que estão por vir esta dúvida intelectual seja pulverizada por uma grande certeza...
   A boa literatura há de sobreviver... Sempre. Enquanto isto, continuem a publicar os seus pasquins.
   O belo, só pode ser visto como tal, porque há o feio...